A Liga Antinazista de Hollywood

Em 1933, Adolf Hitler e seu Partido Nazista chegaram ao poder na Alemanha, deixando o mundo em alerta e levando uma onda de refugiados e imigrantes europeus para a América – incluindo Hollywood, cuja história está intrinsecamente ligada à dos judeus nos Estados Unidos. Logo, muitos artistas do cinema começaram a se mobilizar para combater a ideologia nazifascista. Entre essas mobilizações, uma das mais importantes foi a Liga Antinazista de Hollywood (HANL), fundada em 1936.

Por determinação do Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA), o agente comunista tcheco Otto Katz e o historiador e nobre alemão Hubertus zu Löwenstein promoveram um jantar para arrecadar fundos em Los Angeles, ao qual compareceram figuras como os produtores Irving Thalberg, Jack L. Warner, David O. Selznick e Samuel Goldwyn. A Liga foi inaugurada com uma festa no Shrine Auditorium, que contou com discursos do prefeito de L.A., Frank Shaw, e do comediante Eddie Cantor. Já em 1937, Warner e Carl Laemmle integravam o conselho de administração, que era presidido pelo roteirista Donald Ogden Stewart, com a escritora Dorothy Parker como presidente honorária.

A HANL alegava ter cerca de 5 mil membros. Entre eles estavam Fredric March, Henry Fonda, Walter Wanger, Dashiell Hammett, Clifford Odets, Dudley Nichols, Lewis Milestone, Oscar Hammerstein II, Ernst Lubitsch, Mervyn LeRoy, John Ford, Claude Rains, Melvyn Douglas, Gloria Stuart, Sylvia Sidney, F. Scott Fitzgerald, Chico Marx, Myrna Loy, Edward G. Robinson, James Cagney, Benny Goodman, Fred MacMurray e muitos outros. O IMDb traz uma lista com mais de 80 nomes participantes.

Embora fosse uma organização de fachada comunista, contava com membros de diversas orientações políticas que se opunham ao nazifascismo, de conservadores a progressistas, judeus ou não – na verdade, foi o primeiro grupo do tipo em Hollywood sem conexão direta com o judaísmo.

No entanto, a informação de que a Liga era “dominada pelos vermelhos” fez alguns se afastarem. Em 1937, ela foi uma das primeiras organizações investigadas pelo Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Representantes (HUAC).

Outros, por sua vez, permaneceram fiéis. Fredric March, por exemplo, declarou: “Toda vez, nos últimos anos, que me senti impelido a protestar contra uma injustiça, a gritar contra a desumanidade do homem contra o homem ou apoiar alguma reforma social, fui chamado de comunista. Como os fundadores da nossa pátria acreditavam na justiça, na tolerância e no exercício dessa reforma social como benefício para o povo como um todo, insisto no direito de seguir o exemplo deles e ainda ser reconhecido como um cidadão americano leal.”

Contudo, o papel dos famosos era mais nominal e financeiro – as operações mais práticas ficavam por conta de membros do CPUSA. As atividades da HANL incluíam jantares, palestras, manifestações e boicotes a produtos alemães, além de piquetes em encontros do German American Bund, formado por americanos de ascendência alemã para defender o ideário nazista.

A Liga também denunciava a vinda de personalidades nazifascistas a Los Angeles. Foi o caso das visitas de Vittorio Mussolini, filho do Duce, em 1937, e da cineasta Leni Riefenstahl (que foi alvo de um boicote e só foi recebida por Walt Disney e Hedda Hopper), no ano seguinte.

Além disso, publicava dois jornais, o semanário Hollywood Anti-Nazi News e o Hollywood Now, e tinha dois programas na rádio KFWB (criada por Sam Warner, irmão de Jack e também um dos fundadores da Warner Bros.). A HANL ainda tentou convencer estúdios a produzir um filme antinazista, porém a ideia esbarrou no Código Hays, que determinava que o cinema não deveria se envolver em questões políticas.

Leni Riefenstahl e o cônsul da Alemanha nos Estados Unidos, Georg Gyssling

Em 1939, com a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, um acordo de não agressão entre a União Soviética e a Alemanha, organizações bancadas pelo comunismo não puderam mais fazer oposição ao nazismo (coisas da política…). Com isso, a HANL mudou de nome para Liga Hollywoodiana para a Ação Democrática e depois se diluiu em outras entidades, formando a Mobilização Americana para a Paz.

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