A divorciada

The Divorcee

1930

Sinopse: Ao descobrir que foi traída pelo marido, uma mulher decide pagar na mesma moeda. Então o casal se divorcia e ela começa a afogar as mágoas com uma série de amantes.

Um filme de 92 anos, porém atualíssimo. Feito na esteira dos loucos anos 1920, A divorciada aborda temas como casamento, liberdade sexual, privilégio masculino e direitos femininos. E neste primeiro quarto do século XXI, em que o feminismo está mais em voga do que nunca, ainda é absolutamente pertinente.

A história é baseada em Ex-Wife, romance de estreia da escritora Ursula Parrott. Publicado em 1929, o livro se tornou um best-seller instantâneo e foi considerado escandaloso na época.

O filme começa com notas que mesmo o espectador não familiarizado com o cinema dos anos 1930 reconhecerá: “Singin’ in the Rain”, brevemente tocada pelo personagem Hank (Tyler Brooke) acompanhando o rádio. A canção de Arthur Freed e Nacio Herb Brown havia estreado no ano anterior, interpretada por Doris Eaton Travis no musical The Hollywood Music Box Revue, e se popularizado na voz de Cliff “Ukulele Ike” Edwards no filme Hollywood Revue (The Hollywood Revue of 1929), também da MGM. Mais de vinte anos depois, Gene Kelly a tornou um clássico em Cantando na chuva (Singin’ in the Rain, 1952).

Em uma casa de campo, um grupo de pessoas se diverte conversando, jogando baralho e ouvindo música. Lá fora, Ted (Chester Morris) pede a mão de Jerry (Norma Shearer) em casamento. Os dois voltam para a casa e anunciam o noivado.

Jerry (Norma Shearer) e Ted (Chester Morris)

Todos ficam felizes, exceto Paul (Conrad Nagel), que é apaixonado por Jerry. Quando a turma volta para a cidade, Paul, mesmo alcoolizado e nervoso, insiste em dirigir, mas perde o controle do carro, provocando um acidente que deixa Dorothy (Helen Johnson, mais tarde conhecida como Judith Wood) com o rosto desfigurado (ironicamente, Johnson/Wood também sofreu um grave acidente automobilístico no ano seguinte).

Semanas depois, ocorre um duplo casamento: o de Jerry e Ted, na igreja, e o de Paul, que, movido pela culpa, se casa com Dorothy ainda no hospital.

Três anos se passam. Jerry e Ted comemoram suas bodas de trigo com os amigos. Janice (Mary Doran), uma mulher que teve um breve caso com Ted, aparece de surpresa. Na cozinha, ela avança novamente sobre ele, que tenta se esquivar, mas Jerry entra e flagra os dois juntos. Ele admite a pulada de cerca e dá a velha desculpa de que “não significou nada”.

Na mesma noite, Ted parte em uma viagem de trabalho. Quem fica para consolar Jerry é Don (Robert Montgomery), o melhor amigo dele. Sem uma palavra, o diretor Robert Z. Leonard insinua o segundo adultério de forma muito hábil. Sentados à mesa em uma casa noturna, Don se aproxima de Jerry com um sorriso sedutor, e ela retribui. Em seguida eles aparecem no carro com o olhar malicioso de quem está prestes a fazer algo proibido e saborear uma vingança. Então vemos um par de cortinas se fechar e na sequência Jerry chega em casa sozinha.

Don e Jerry com a boca na botija

Uma semana depois, Ted regressa. O que vem a seguir é um show de hipocrisia. Don telefona pedindo a Jerry que não conte nada a ele. Ela confessa ao marido que “ajustou as contas”, mas não revela o nome do outro. Ted não aceita, queixando-se de que todos vão rir dele. Jerry o acusa de estar mais preocupado com seu orgulho masculino e diz que a partir de agora ele é o único homem para o qual suas portas estarão fechadas. É o fim da linha para Jerry e Ted.

Vale lembrar que na época do filme, mesmo nos Estados Unidos, o divórcio ainda era um tabu. Na maioria dos estados, a lei era restritiva e o processo era extremamente burocrático e demorado. Pessoas divorciadas (principalmente mulheres) costumavam ficar malvistas.

Desiludida, Jerry decide aproveitar a liberdade e se entrega a uma sucessão de amantes. Em mais uma boa sacada, Leonard mostra apenas as mãos dos respectivos casais (sempre muito bem-vestidos e tomando champanhe) enquanto o espectador ouve suas vozes em off.

Uma noite Jerry está viajando de trem com um amante quando descobre que Paul está no mesmo vagão. Eles desabafam um com o outro. Ela está desgastada com sua nova vida errante e ele vive uma união infeliz com Dorothy, que sabe que ele ainda ama Jerry.

“Partiu Japão, Jerry?”

Paul tem uma proposta para trabalhar no Japão e pede a Jerry em casamento, garantindo que sua esposa não se oporá ao divórcio. No entanto, Dorothy vai à casa dela, toda vestida de preto e com um véu cobrindo o rosto, como uma aparição fantasmagórica. Paul chega logo em seguida. Dorothy pede a Jerry que não lhe tire o marido, pois já não tem orgulho e o casamento é sua única razão para seguir vivendo. Paul alega que ela havia concordado com o divórcio, que continuará garantindo o sustento dela e que ele “tem direito a uma vida pessoal, como qualquer pessoa”.

Tudo bem que estamos falando de 1930, mas aqui o filme, que lida tão bem com o machismo, dá uma escorregada nele – e no capacitismo. O diretor não mostra o ferimento no rosto de Dorothy (se fosse num filme atual…), mas é de se questionar: uma pessoa com um problema físico não pode ser amada? Uma mulher depende da aparência para ter um casamento feliz? Precisa se humilhar e segurar um marido que claramente não a ama para seguir vivendo?

Depois disso, a ousadia do filme se perde um pouco em um final romântico convencional, mas as reflexões levantadas por ele permanecem.

A opção original da Metro para interpretar Jerry era Joan Crawford. Norma Shearer, que ansiava por mudar sua imagem, fez lobby pelo papel, mas o estúdio – incluindo seu marido, o produtor Irving Thalberg – achava que ela não tinha o sex appeal necessário. Então, Shearer fez um ensaio sensual com o fotógrafo George Hurrell e conseguiu convencer Thalberg (pelo menos na vida real não teve divórcio!).

O esforço foi mais do que válido. Mesmo com a presença de Chester Morris e Conrad Nagel, astros populares na época, o filme é todo de Norma, que domina os 84 minutos de projeção com um desempenho forte e esbanjando charme (curiosamente, durante as filmagens, ocorridas em fevereiro de 1930, ela estava grávida do primeiro filho, Irving Thalberg Jr., que nasceu em agosto). O resultado foi o Oscar de Melhor Atriz, que Norma recebeu das mãos de Nagel, seu colega de elenco e um dos fundadores da Academia.

Nagel entrega o Oscar a Norma

Quem não ficou nada contente foi Crawford. Foi o primeiro de vários papéis que ela perdeu para Norma, o que gerou uma rivalidade entre as duas. Sem esconder o ressentimento, Joan disparou: “Queria o quê? Ela dorme com o chefe!”

Além do Oscar de Melhor Atriz, o filme concorreu a mais três estatuetas: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro. No mesmo ano, Norma também foi indicada por sua atuação em Ébrios de amor (Their Own Desire, 1929), mas foi o sucesso de A divorciada que proporcionou uma guinada em sua carreira, dando a ela uma série de personagens independentes que desafiavam os padrões morais da época.

Ficha técnica:
Diretor: Robert Z. Leonard
Elenco: Norma Shearer, Chester Morris, Conrad Nagel, Robert Montgomery, Florence Eldridge, Helene Millard, Robert Elliott, Helen Johnson, Mary Doran, Tyler Brooke, Zelda Sears, Theodore von Eltz e George Irving
Roteiro: John Meehan, Nick Grinde e Zelda Sears (baseado no romance Ex-Wife, de Ursula Parrott)
Fotografia: Norbert Brodine
Produtores: Robert Z. Leonard e Irving Thalberg
Estúdio: MGM
País: EUA
www.imdb.com/title/tt0020827
 

Um comentário

  1. Norma Shearer de fato foi um ícone da emancipação da mulher. Serviu de modelo e exemplo para muitas que também desejavam ser atrizes de sucesso e independentes, como a própria Eva Duarte, a Evita Perón. Ela admirava muito os filmes com Norma.

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