Greta Garbo

“A vida seria tão maravilhosa se ao menos soubéssemos o que fazer com ela.”

Greta Garbo

Das noites frias e cinzentas de uma área pobre de Estocolmo, saiu uma menina arredia que se tornou a maior lenda da sétima arte.

Greta Lovisa Gustafsson nasceu em 18 de setembro de 1905, no distrito de Södermalm. Mais tarde ela recordaria melancolicamente a vida humilde e cheia de ansiedade ao lado dos pais e dos irmãos mais velhos. Tímida e sonhadora, desde cedo se interessou pelo teatro. Como muitas garotas da classe trabalhadora, abandonou os estudos aos 13 anos.

No inverno de 1919, durante a epidemia de gripe espanhola, o pai adoeceu e perdeu o emprego. Greta, de quem ele era muito próximo, passou a cuidar dele, que acabou morrendo em junho de 1920, quando a caçula tinha 14 anos.

Com a doença do pai, Greta foi trabalhar em uma barbearia. Meses depois, se transferiu para a tradicional loja de departamentos PUB, onde conseguiu um salário melhor. Trabalhando no setor de chapelaria, se tornou modelo do catálogo da loja. “Ah, como estou feliz!”, teria dito Greta ao ser convidada para fazer o catálogo. Segundo a chefe do departamento, foi a frase mais longa que a jovem proferiu enquanto trabalhou lá.

No final de 1920, o diretor Ragnar Ring convidou Greta para fazer um comercial da loja. Após três comerciais, ela chamou a atenção do diretor Erik A. Petschler, que a escalou para a comédia Pedro, o vagabundo (Luffar-Petter, 1922). A conselho de Petschler, ela participou de uma audição na academia do Teatro Dramático Real da Suécia e foi aprovada.


Em meados de 1923, Greta foi chamada pelo diretor Mauritz Stiller para um papel importante em seu novo filme, Gösta Berlings Saga (1924). De forma semelhante à de Josef von Sternberg e Marlene Dietrich alguns anos depois, Stiller se tornou mentor de Greta, polindo sua imagem, treinando-a como atriz e dando-lhe um novo nome artístico: Greta Garbo.

Stiller e Garbo foram convidados pela Trianon AG para trabalhar na Alemanha. De lá, viajaram para Constantinopla (atual Istambul) na tentativa de rodar seu próximo filme, Odalisken från Smolna. A produção foi marcada por problemas financeiros e acabou cancelada, com a equipe ainda na Turquia. Sabendo da situação, o diretor G.W. Pabst deu a Greta um papel de destaque em Rua das lágrimas (Die freudlose Gasse, 1925).

Quem estava em Berlim nessa época era Louis B. Mayer, vice-presidente da americana Metro-Goldwyn-Mayer. Há diferentes versões sobre o objetivo de Mayer. A primeira diz que ele foi em busca de Stiller, e o diretor exigiu que Garbo fosse incluída no contrato. A outra afirma que ele já estava interessado na atriz. Fato é que em junho de 1925 Garbo e Stiller zarparam rumo à América a bordo do SS Drottningholm, desembarcando em Nova York dez dias depois.

No entanto, ao chegarem lá, a MGM demonstrou pouco interesse, o que enervava a insegura atriz. Enquanto Stiller tentava negociar o contrato com o estúdio, Greta fez alguns trabalhos como modelo. Finalmente os dois partiram para Los Angeles, onde foram levados ao escritório de Mayer e conheceram o produtor Irving Thalberg.

Garbo esperava continuar a parceria com Stiller em sua estreia hollywoodiana, mas em vez disso foi escalada em Laranjais em flor (Torrent, 1926), dirigido por Monta Bell. Apesar do sucesso do filme, Greta continuava insegura e resistia à insistência de Mayer para estender seu contrato de três para cinco anos.

O segundo filme foi Terra de todos (The Temptress, 1926). Stiller foi inicialmente escolhido para dirigi-lo, mas, além de não se adaptar ao sistema de estúdios, entrou em conflito com o astro Antonio Moreno. Então, Thalberg o substituiu por Fred Niblo. Com isso, Stiller e Garbo não trabalharam mais juntos. No ano seguinte ele voltou para a Suécia, onde morreu de pleurisia em 1928, aos 45 anos. Sua morte foi um baque para Greta.

Durante as filmagens de Terra de todos, Garbo recebeu a notícia de que sua irmã, Alva, morrera de câncer linfático, aos 22 anos. No entanto, a Metro não a autorizou a viajar para os funerais, planejando logo um novo filme para ela. Isso, somado à demissão de Stiller, deixou a atriz deprimida e esgotada.

O projeto seguinte, A carne e o Diabo (Flesh and the Devil, 1926), pôs Garbo ao lado do maior astro do estúdio, John Gilbert. Insatisfeita com o papel e ainda abatida, Greta se opôs, mas as coisas se amenizaram quando ela começou a trabalhar com Gilbert. Foi amor à primeira vista. Thalberg percebeu a química entre os dois e ordenou que fossem incluídas mais cenas de amor no roteiro.

O filme alçou Garbo ao estrelato e fez dela e Gilbert um dos maiores casais do cinema. Eles passaram a morar juntos ao fim da produção. Ainda na era muda, fizeram mais dois filmes juntos: Anna Karenina (Love, 1927) e Mulher de brio (A Woman of Affairs, 1928). O romance chegou ao fim quando Greta, após aceitar o pedido de casamento, deixou John esperando no altar.

Com Mulher de brio, Garbo se tornou a maior bilheteria da MGM. Suas personagens sensíveis e trágicas hipnotizavam o público. Sua expressividade sutil trouxe uma nova abordagem à forma de atuar no cinema mudo.

Porém, a essa altura o som havia chegado, e a MGM temia que o sotaque da estrela atrapalhasse seu desempenho, como aconteceu com muitos astros da era silenciosa. Por isso, a transição foi adiada o máximo possível. O último filme mudo de Garbo e da Metro foi O beijo (The Kiss, 1929).

Em fevereiro de 1930, enfim chegou às telas Anna Christie, que também teve uma versão em alemão, lançada em dezembro. A divulgação usou o slogan “Garbo fala!”. O temor do estúdio se mostrou infundado: a essa altura, Garbo já falava inglês tão bem que precisou até forçar o sotaque para interpretar a ex-prostituta sueca que vai ao encontro do pai que ela não vê desde criança. O filme se tornou um dos maiores sucessos do ano.

Garbo em Anna Christie

Ainda em 1930, Greta apareceu em Romance. As duas produções lhe deram sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz – na época, uma indicação podia valer por mais de um filme.

Desde a chegada a Hollywood, Garbo se notabilizou pela aversão à publicidade que fez dela um mito: não comparecia a eventos públicos, como premières e cerimônias do Oscar – nem mesmo quando era indicada –, não dava autógrafos nem respondia às cartas dos fãs e raramente dava entrevistas. Essa aura de mistério lhe rendeu a alcunha de “Esfinge Sueca”. A atriz também era conhecida por exigências excêntricas no set e pelos frequentes embates com o estúdio, que, embora conhecido pelo autoritarismo, muitas vezes se curvava ao retorno financeiro que ela representava.

Montagem do fotógrafo Clarence Sinclair Bull mostrando Garbo como a “Esfinge Sueca”

Lendárias também são sua vida amorosa e sua sexualidade. Além de John Gilbert, seu suposto caso mais famoso foi com a escritora cubano-americana Mercedes de Acosta, que alegava ter tido romances lésbicos com várias atrizes de Hollywood e da Broadway. As duas foram amigas por mais de 30 anos, mas quando parte da correspondência entre elas foi aberta, dez anos após a morte de Garbo, nenhum conteúdo romântico se revelou.

Os anos 1930 deram a Greta alguns dos seus papéis mais celebrados. O primeiro deles foi em Mata Hari (1931), interpretando a sensual dançarina e espiã da I Guerra Mundial. Um dos maiores sucessos comerciais de sua carreira, o filme atraiu multidões aos cinemas.

Garbo e Ramon Novarro em Mata Hari

Em 1932, a MGM apostou alto com Grande Hotel (Grand Hotel), um luxuoso drama com um elenco estelar que também incluía Joan Crawford, Wallace Beery e os irmãos John e Lionel Barrymore. Na pele de uma atormentada bailarina russa, Greta pronuncia a frase que se tornou sua marca registrada: “Eu quero ficar sozinha!” A produção se tornou a única, até hoje, a ganhar o Oscar de Melhor Filme sem ter sido indicada em nenhuma outra categoria.

Com John Gilbert no set de Grande Hotel

Após o lançamento de Como me queres (As You Desire Me, 1932), o contrato de Garbo expirou, e ela regressou ao país natal. Durante a retirada, leu um tratamento de sua amiga Salka Viertel sobre a vida de Cristina, rainha da Suécia no século XVII. Então, como condição para firmar um novo contrato, exigiu que a Metro filmasse a história e aumentasse o seu salário. Depois de quase um ano de negociações, ela enfim reapareceu em Rainha Cristina (Queen Christina, 1933). O departamento de publicidade do estúdio sacou o slogan “Garbo retorna!”, marcando o regresso da Divina depois de um ano e meio longe das telas.

Em mais uma mostra do seu poder, Garbo insistiu na escalação de John Gilbert como par romântico. O estúdio relutou, já que a carreira de Gilbert vinha em declínio. Mas Greta bateu o pé e garantiu o papel para o ex.

Garbo e Gilbert em Rainha Cristina

Em 1935 e 1936, Garbo faturou duas vezes o prêmio de melhor atriz da Associação de Críticos de Nova York, com duas de suas atuações mais aclamadas: respectivamente Anna Karenina (sua segunda adaptação do romance de Tolstói) e A dama das camélias (Camille, baseado na obra de Alexandre Dumas). Este, o favorito de Greta entre seus filmes, foi um sucesso internacional e também deu a ela mais uma indicação ao Oscar.

Basil Rathbone, Garbo e Freddie Bartholomew em Anna Karenina

Mas os tempos estavam mudando, e em seguida veio Madame Walewska (Conquest, 1937). Embora tenha sido um dos filmes mais caros de Garbo, foi um dos maiores fracassos financeiros dela e da MGM, com um prejuízo de mais de 1 milhão de dólares. Após o lançamento, novamente seu contrato expirou e lá foi Greta para a Suécia. Em 1938, ela e outros atores foram tachados de “veneno de bilheteria” em um artigo que circulou na imprensa.

Com Charles Boyer em Madame Walewska

Depois disso, o estúdio decidiu que era preciso mudar a imagem de Greta e a colocou em um terreno até então inexplorado: uma comédia. Seguindo o padrão, Ninotchka (1939) recebeu o slogan “Garbo ri!” Greta satiriza sua própria imagem melancólica interpretando uma sisuda agente soviética, que não demonstra qualquer emoção até explodir em gargalhadas ao ver Melvyn Douglas cair de uma cadeira. A risada cativou público e crítica, e Garbo conquistou sua terceira indicação ao Oscar.

Com Melvyn Douglas em Ninotchka

A fórmula pareceu ter dado certo, então a Metro reuniu Garbo e Douglas em mais uma comédia romântica: Duas vezes meu (Two-Faced Woman, 1941). Dessa vez, porém, o resultado deixou a desejar. Apesar do desempenho razoável nas bilheterias, o filme foi detonado pelos críticos, para desgosto da atriz. Aos 36 anos, sem saber, ela fizera seu último trabalho.

Ao contrário do que se pensa, a despeito do fiasco, Greta não decidiu abandonar a carreira logo após Duas vezes meu, mas uma série de fatores a impediu de prosseguir. A II Guerra Mundial afundou o mercado europeu, do qual seus filmes dependiam muito, e a MGM tinha dificuldade para encontrar uma história adequada para Garbo. E ela própria desejava um retorno, mas ao mesmo tempo o temia.

Ao longo do tempo, ela se envolveu em diversos filmes que não se concretizaram. Em 1948, assinou contrato com o produtor Walter Wanger para uma adaptação do romance A duquesa de Langeais, de Honoré de Balzac. Chegou a fazer testes de câmera, mas o projeto foi abandonado por falta de financiamento. Também recusou inúmeros convites, entre eles os papéis de Norma Desmond em Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950) e Blanche DuBois em Uma rua chamada pecado (A Streetcar Named Desire, 1951). Além disso, um dos seus grandes desejos era interpretar Dorian Gray, mas a ideia nunca saiu do papel.

Com a aposentadoria, Garbo se tornou a reclusa mais famosa do mundo. Em 1954, a Academia lhe concedeu um Oscar Honorário – que, obviamente, ela não foi buscar. No ano anterior, ela fora viver em Manhattan, onde permaneceu pelo resto da vida. Gostava de ir a festas e viajar com amigos ricos e famosos, mas evitava a todo custo a publicidade que sempre detestou. Costumava fazer caminhadas diárias pelas ruas de Nova York, sozinha ou acompanhada, sempre com roupas casuais e usando grandes óculos escuros para despistar os curiosos. Persegui-la e conseguir uma foto se tornou um esporte para os paparazzi.

Uma das últimas fotos de Garbo, tirada no início de 1990

Em seus últimos anos, Greta sofreu de câncer de mama e também teve de ser submetida a sessões de diálise. Até que, em 15 de abril de 1990, aos 84 anos, sua luz se apagou, em decorrência de pneumonia e insuficiência renal. Sábia investidora e dona de uma importante coleção de arte, Garbo deixou para a sobrinha um patrimônio de 32 milhões de dólares. E para o resto do mundo, deixou um enigma que jamais será desvendado.

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