Drácula

Dracula

1931

Sinopse: O vampiro Conde Drácula resolve deixar seu castelo na Transilvânia rumo à Inglaterra, onde aterroriza as ruas de Londres e a vida de uma inocente família.

De todos os gêneros cinematográficos, o terror talvez seja um dos que mais evoluíram ao longo do tempo, com as inovações tecnológicas e a mudança de perspectiva do público. Hoje em dia, filmes de terror antigos podem parecer um tanto ingênuos e rudimentares em comparação com as produções atuais. No entanto, eles mostram que um clima bem construído e performances marcantes são tão eficazes quanto sustos, sangue e efeitos especiais para manter o espectador preso à cadeira e criar um filme emblemático.

Em 1930, Drácula, o famoso romance de Bram Stoker publicado em 1897, já havia ganhado duas adaptações para o cinema mudo: a húngara Drakula halála (1921), hoje considerada perdida, e a clássica alemã Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922), feita sem autorização da viúva de Stoker e quase destruída. Foi quando a Universal Pictures viu o potencial da história e decidiu filmá-la pela primeira vez com som.

O estúdio comprou os direitos do livro e de suas versões teatrais. O plano original era fazer uma grande produção, adaptada diretamente do romance. Todavia, a Grande Depressão começava a se fazer sentir, então o produtor Carl Laemmle, Jr. teve que recuar e reduzir o orçamento, usando como base a peça de Hamilton Deane e John L. Balderston, que fazia sucesso nos palcos desde 1927.

Apesar do êxito da peça, a princípio Laemmle não se interessou pelo protagonista, um desconhecido húngaro (nascido próximo à Transilvânia, na atual Romênia) chamado Bela Lugosi. Nos anos 1920, a Universal havia prosperado com os filmes de horror estrelados por Lon Chaney, que no final da década também se destacou em parceria com o diretor Tod Browning na MGM. Portanto, a dupla era uma escolha natural para trabalhar em Drácula. Porém, Chaney morreu de câncer no pulmão em agosto de 1930, aos 47 anos. Outros atores chegaram a ser cogitados, como Paul Muni, Chester Morris, John Schildkraut e Conrad Veidt. Mas Lugosi, que estava em Los Angeles em turnê com a peça, fez um intenso lobby pelo papel, inclusive aceitando um modesto salário de 500 dólares por semana. E assim a história se fez.

Helen Chandler e Bela Lugosi

A fala cadenciada, articulada e o forte sotaque de Lugosi tornaram a criatura das trevas ainda mais sinistra. O olhar fixo, o porte distinto e os maneirismos provocaram um misto de horror e sedução no público. Seu Drácula é bem diferente do imaginado por Bram Stoker, um ser horripilante, com a aparência de um velho de orelhas pontiagudas, mãos peludas e um longo bigode, mais parecido com o Conde Orlok retratado por Max Schreck em Nosferatu. O sucesso do filme, no entanto, fez de Lugosi a imagem definitiva do vampiro.

Max Schreck em Nosferatu e Bela Lugosi em Drácula

E o ator mergulhou fundo no personagem. Segundo o colega de elenco David Manners, Lugosi tinha um comportamento excêntrico e distante no set. Limitava-se a dar bom-dia e boa-noite e ficava em frente ao espelho jogando sua capa sobre o ombro e repetindo o mantra: “Eu sou Drácula!”

I am… Drrrracula!

Ironicamente, antes mesmo do lançamento, Lugosi já temia ficar estereotipado, chegando a recusar a oferta de mais uma turnê da peça. E o temor se mostrou justificado: ele permaneceu até o fim da vida preso à imagem de Drácula, o que reduziu consideravelmente suas opções de trabalho. Mais tarde, ele considerou o personagem ao mesmo tempo “uma bênção e uma maldição” e foi enterrado com uma de suas capas de vampiro.

Helen Chandler e David Manners

Outra marca do filme são os longos momentos de silêncio, que, embora tornem o ritmo um pouco lento, acrescentam suspense à trama. Um respeitado diretor do cinema mudo, Tod Browning não se adaptou bem à chegada do som. Ainda de acordo com Manners (que alegou nunca ter assistido ao filme), ele perdeu rapidamente o interesse, relegando boa parte do trabalho ao diretor de fotografia Karl Freund e deixando o elenco desorientado. Depois de Drácula, Browning fez apenas mais seis filmes – incluindo o polêmico Monstros (Freaks, 1932), que minou sua carreira – e se aposentou em 1939.

Lugosi, Helen Chandler e Tod Browning no set do filme

Destino semelhante teve o ator Dwight Frye. No papel de Renfield, ele proporciona a atuação mais eletrizante do filme, indo do comedido agente imobiliário ao ensandecido lacaio do conde. Depois disso, Frye passou a ser escalado sucessivamente para viver personagens insanos e bizarros, como o corcunda Fritz de Frankenstein (1931), até morrer de ataque cardíaco aos 44 anos, em 1943.

Dwight Frye e Edward Van Sloan

Outro ator egresso da montagem teatral é Edward Van Sloan, que viveu o Professor Van Helsing. Ele apareceria em vários exemplares da série de horror da Universal – incluindo a continuação A filha de Drácula (Dracula’s Daughter, 1936), Frankenstein e A múmia (The Mummy, 1932) –, sempre em papéis análogos: o do veterano professor/cientista que conhece os segredos do vilão/monstro e ajuda os heróis a derrotá-lo.

           

Também vale destacar a pequena participação de Carla Laemmle, prima de Carl Laemmle Jr. e, portanto, sobrinha de Carl Laemmle, fundador e presidente da Universal – o estúdio empregava diversos membros da família. Carla aparece logo na sequência inicial lendo um livro na carruagem, e tem a primeira fala do filme. Ela foi a última sobrevivente do elenco, tendo morrido em junho de 2014, pouco antes de completar 105 anos de idade.

Na época, era comum os estúdios de Hollywood rodarem versões de seus filmes em outras línguas, visando o mercado estrangeiro, já que as dublagens não eram comuns. Drácula ganhou um “irmão gêmeo” em espanhol, filmado simultaneamente, à noite, nos mesmos sets, com Carlos Villarías no papel-título. Muitos críticos o consideram melhor que a contraparte anglófona. Houve também uma versão muda, já que no início dos anos 1930 nem todos os cinemas americanos estavam equipados para exibir filmes falados.

Carlos Villarías, o Drácula espanhol

Embora a Universal já produzisse filmes de terror antes, Drácula inaugurou a série de monstros que se tornou a marca registrada do estúdio e um dos gêneros cinematográficos mais populares daquela década. De quebra, alçou Bela Lugosi à eternidade no cinema e o Conde Drácula em um dos personagens mais evocados do século XX.

Ficha técnica
Diretor: Tod Browning
Elenco: Bela Lugosi, Helen Chandler, David Manners, Dwight Frye, Edward Van Sloan, Herbert Bunston, Frances Dade, Joan Standing e Charles K. Gerrard
Roteiro: Garrett Fort (baseado na adaptação teatral de Hamilton Deane e John L. Balderston para o romance de Bram Stoker)
Fotografia: Karl Freund
Produtores: Tod Browning e Carl Laemmle Jr.
Estúdio: Universal Pictures
País: EUA
www.imdb.com/title/tt0021814/

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