O grande motim

Mutiny on the Bounty

1935

Sinopse: A bordo do navio Bounty, o capitão William Bligh comanda a tripulação com mãos de ferro. Indignado com a crueldade de Bligh, o imediato Fletcher Christian lidera um motim para derrotá-lo.

Da história para a literatura, da literatura para o cinema. Em 1787, o navio da Marinha Real Inglesa Bounty partiu em uma missão de dois anos para colher e transportar árvores-pão do Taiti para as Índias Ocidentais. Durante a viagem, a tripulação se revoltou contra o capitão William Bligh e, liderada pelo imediato Fletcher Christian, expulsou do navio o capitão e seus asseclas, que conseguiram voltar à Inglaterra e capturar parte dos amotinados, os quais foram julgados por uma corte marcial. Christian e outros conseguiram escapar e se estabeleceram nas Ilhas Pitcairn.

O caso ganhou notoriedade a partir do diário publicado por Bligh e outros relatos posteriores, adquirindo contornos de lenda. Entre 1932 e 1934, os americanos Charles Nordhoff e James Norman Hall lançaram uma trilogia de romances sobre o motim.

O cineasta Frank Lloyd comprou os direitos da obra de Nordhoff e Hall por 12,5 mil dólares e os vendeu à MGM com a condição de que ele mesmo dirigisse o filme. Sob a supervisão dos diretores de arte Cedric Gibbons e Arnold Gillespie, Lloyd mandou construir réplicas em tamanho real do Bounty e do Pandora, os dois navios que aparecem na história, juntou uma equipe de filmagem e zarpou rumo ao Taiti para colher imagens da ilha e do mar. Porém, ao retornar, constatou que o material havia se estragado devido ao mau armazenamento. Lloyd e sua equipe tiveram que repetir a viagem e refilmar quase tudo.

O esmero de Lloyd – ganhador de dois Oscars nas seis primeiras edições do prêmio da Academia, da qual ele foi um dos fundadores e presidente no biênio 1934-35 – não se limitou às embarcações. Ele também procurou a Gieves & Hawkes, a mesma alfaiataria londrina que criara o uniforme de Bligh um século e meio antes – e ainda tinha as medidas – e pediu que reproduzissem a indumentária. O ator Charles Laughton precisou perder alguns quilinhos para caber nela. A imagem de Laughton trajando o uniforme de capitão, com sua figura rotunda, suas sobrancelhas frondosas e seus lábios proeminentes, se tornou uma das mais emblemáticas da carreira do ator, sendo até satirizada em desenhos animados.

Clark Gable como Fletcher Christian e Charles Laughton como o capitão Bligh

O grande motim é uma clássica aventura náutica na tradição de romances como O lobo do mar, de Jack London, e A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Pela ambientação nos Mares do Sul – o que por si só constitui um subgênero à parte –, também lembra o filme Tabu (Tabu: A Story of the South Seas, 1931), de F. W. Murnau (só que com os polinésios bem vestidinhos!).

Por determinação do produtor Irving Thalberg, Lloyd enfatizou o embate entre Bligh e Christian no convés do Bounty, desenvolvendo uma trama psicológica subjacente à ação. Também há cenas espetaculares de tempestades em alto-mar. O motim propriamente dito só vai acontecer lá pelo meio do filme e dura apenas alguns minutos, dando lugar, na parte final, à caçada do capitão aos seus rebeldes.

A tensão predominante a bordo é contrabalançada com idílicas cenas tropicais. Além das filmagens na Polinésia Francesa (das quais os astros principais não participaram), outra locação utilizada foi a ilha Catalina, popular destino turístico a cerca de 35km da costa da Califórnia. Os taitianos foram representados por atores e figurantes de etnias diversas. Entre eles estão a havaiana Mamo Clark e a americana de ascendência mexicana Movita Castaneda, futura esposa de Marlon Brando (que, aliás, estrelou um remake do filme em 1962).

O filme promove uma visão um tanto colonialista. Logo no início é explicado que a missão da viagem era buscar árvores-pão que serviam de alimento barato para os escravos. O homem branco é mostrado sob uma luz sempre positiva, escrevendo um dicionário da língua local e conquistando a simpatia dos nativos – e o coração das nativas. Até o Natal eles comemoram na ilha. Contudo, a história nos conta que a realidade não foi bem assim.

Bill Bambridge e Movita. O taitiano Bambridge trabalhou tanto em O grande motim como em Tabu.

Embora o grupo que se estabeleceu nas Ilhas Pitcairn tenha realmente constituído famílias com mulheres locais, houve hostilidades e muitos nativos foram escravizados. Em 1808, quando um navio americano apareceu em Pitcairn, o único amotinado ainda vivo era John Adams (também conhecido pelo pseudônimo Alexander Smith, hilariamente interpretado por Herbert Mundin no filme), que deu relatos conflitantes sobre o destino de Christian.

São várias as imprecisões históricas da produção. Bligh, por exemplo, nunca embarcou no Pandora, o navio mandado para caçar os amotinados, tampouco esteve no julgamento dos capturados. Também há dúvidas quanto ao seu nível de crueldade (de fato, em alguns momentos o sadismo gratuito de Bligh no filme parece um tanto exagerado). Antes do motim, só houve duas mortes a bordo, e ambas por causas naturais. Além disso, nenhum dos tripulantes que se mantiveram leais foi morto.

Clark Gable inicialmente se recusou a participar do filme. Além de ter que usar calças curtas e rabo de cavalo, ele precisaria tirar o bigode que já havia se tornado sua marca registrada. Thalberg o chamou e prometeu que se O grande motim não fosse um grande sucesso, nunca mais o obrigaria a fazer um papel que ele não quisesse. Foi a última vez que Clark apareceu nas telas de cara limpa.

Com efeito, não é um papel típico de Gable. O heroico e altruístico marinheiro inglês Fletcher Christian pouco tem a ver com os norte-americanos urbanos, cínicos e de moral dúbia que o ator costumava interpretar.

Thalberg escalou Charles Laughton e Gable, dois atores de personalidades totalmente diferentes, com a expectativa de que as diferenças entre eles se refletissem na atuação, realçando o antagonismo entre Bligh e Christian na ficção.

Warren G. Harris, biógrafo de Gable, afirma que os dois viraram “inimigos instantâneos”. Laughton, que segundo sua própria esposa, a atriz Elsa Lanchester, era homossexual, levou para as filmagens em Catalina um “massagista” que ia com ele para todo lado, para desgosto de Clark, um macho alfa por excelência.

Laughton era extremamente inseguro com sua sexualidade e sua aparência física, e ficava mal-humorado perante colegas mais bonitos. Além disso, ele se ressentia do fato de Gable ter ganhado o Oscar de Melhor Ator por Aconteceu naquela noite (It Happened One Night, 1934), quando a aclamada performance do inglês em A família Barrett (The Barretts of Wimpole Street, 1934) não foi sequer indicada.

Segundo Harris, mesmo durante o trabalho Laughton não dirigia o olhar a Gable, irritando o americano, que se queixou com Irving Thalberg. Todavia, o produtor foi até a locação e passou um pito nos dois.

De qualquer modo, a estratégia de Thalberg foi bem-sucedida: tanto Laughton como Gable, que haviam ganhado os dois últimos Oscars, foram indicados novamente.


Se por um lado Clark não se deu bem com Laughton, por outro fez um amigo improvável: Franchot Tone. Ambos eram rivais pelos afetos de Joan Crawford, que naquele ano se casou com Tone. No entanto, durante as filmagens eles descobriram uma paixão em comum (além de Joan): mulheres e bebidas.

A opção original para o papel de Roger Byam (que é fictício, mas baseado em um personagem real, o aspirante Peter Heywood) era Cary Grant. Grant ficou interessado na oportunidade de trabalhar na MGM, que lhe daria visibilidade, mas a Paramount não o liberou, então Franchot ganhou o papel. E nós perdemos a oportunidade de ver Clark Gable e Cary Grant no mesmo filme.

Franchot também concorreu ao Oscar, fazendo de O grande motim o único filme a receber três indicações à estatueta de Melhor Ator. Para evitar que isso se repetisse, no ano seguinte foram criadas as categorias de Ator e Atriz Coadjuvantes.

Movita, Franchot Tone e Gable

Os atores James Cagney, David Niven e Dick Haymes atuaram como extras no filme. Cagney, que estava em litígio com a Warner e era amigo de Lloyd, estava passando com seu barco perto do local das filmagens e pediu ao diretor que lhe desse um papel, brincando que precisava do dinheiro. Lloyd então lhe deu um uniforme e o colocou entre os marinheiros do Bounty.

A produção, no entanto, não terminou sem uma tragédia. O cameraman Glenn Strong morreu quando uma barca que levava 55 membros da equipe virou. Chegou a ser noticiado que Gable e Laughton também haviam morrido no acidente, mas repórteres entraram em contato com Elsa Lanchester, que desmentiu.

Ao fim do trabalho, Howard Strickling, chefe de publicidade da MGM, queria que Gable saísse em um tour promocional pelos Estados Unidos, mas o ator recusou, pois isso significaria ter de viajar ao lado da esposa, Ria Langham. Strickling o convenceu prometendo uma extensão para a América do Sul, na qual ele poderia ir sozinho. Durante essa viagem, Clark fez uma passagem-relâmpago pelo Brasil, visitando Santos, São Paulo e Rio em cerca de 24 horas e causando frisson entre as fãs.

O grande motim custou 2 milhões de dólares à Metro, mas compensou o gasto ao se tornar a maior bilheteria de Hollywood em 1935. Foi a produção mais cara e o maior sucesso do estúdio desde o épico Ben-Hur (Ben-Hur: A Tale of the Christ, 1925). O triunfo se completou com o Oscar de Melhor Filme. Além das três indicações à estatueta de Melhor Ator, também concorreu aos prêmios de Diretor (Lloyd), Roteiro Adaptado (Jules Furthman, Talbot Jennings e Carey Wilson), Montagem (Margaret Booth) e Trilha Sonora (Nat W. Finston e Herbert Stothart). Foi o último filme a ganhar apenas a categoria principal e nenhuma outra. Antes dele, Melodia da Broadway (The Broadway Melody, 1929) e Grande Hotel (Grand Hotel, 1932) – ambos também da MGM – haviam alcançado o mesmo feito.

Jackie Coogan batendo um papo com o diretor Frank Lloyd e Clark Gable durante as filmagens em Catalina

Não foi a primeira nem a última adaptação da história do motim para o cinema. Antes, haviam sido feitas duas versões australianas: The Mutiny on the Bounty (1916) e In the Wake of the Bounty (1933), que marcou a estreia do ator Errol Flynn. Além do remake de 1962 (que, ao contrário do original, foi um fracasso), em 1984 foi lançado Rebelião em alto-mar (The Bounty), com Mel Gibson como Fletcher Christian e Anthony Hopkins como o capitão Bligh.

Em 1940, Lloyd tentou fazer um novo filme sobre a vida de Bligh, e em 1945 a Metro planejou uma continuação com Gable voltando ao papel de Fletcher Christian. Porém, nenhum dos dois foi adiante.

Ficha técnica:
Diretor: Frank Lloyd
Elenco: Charles Laughton, Clark Gable, Franchot Tone, Herbert Mundin, Eddie Quillan, Dudley Digges, Donald Crisp, Henry Stephenson, Francis Lister, Spring Byington, Movita, Mamo Clark, Byron Russell, Percy Waram, David Torrence, John Harrington, Douglas Walton, Ian Wolfe, DeWitt Jennings, Ivan F. Simpson, Vernon Downing, Bill Bambridge, Marion Clayton Anderson, Stanley Fields, Wallis Clark, Crauford Kent, Pat Flaherty, Alec Craig, Charles Irwin e Dick Winslow
Roteiro: Talbot Jennings, Jules Furthman e Carey Wilson (baseado no romance de Charles Nordhoff e James Norman Hall)
Fotografia: Arthur Edeson
Música: Herbert Stothart
Montagem: Margaret Booth
Produtores: Albert Lewin, Frank Lloyd e Irving Thalberg
Estúdio: MGM
País: EUA
www.imdb.com/title/tt0026752

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