Grande Hotel

Grand Hotel

1932

Sinopse: Em um luxuoso hotel de Berlim, as vidas de sete pessoas se entrelaçam.

Se pudéssemos resumir o glamour da Hollywood dos anos 1930 em um filme, esse filme seria Grande Hotel. E não é por acaso. Louis B. Mayer e Irving Thalberg, os homens fortes da MGM – ela própria o estúdio mais glamouroso da época, que se gabava de ter “mais estrelas do que há nos céus” –, estabeleceram um plano revolucionário: eles acreditavam que o projeto não deveria ser um veículo para somente uma dessas estrelas, mas para uma constelação.

Em 1929, a escritora Vicki Baum publicou na Alemanha o romance Menschen im Hotel e logo o adaptou para o teatro. O livro se tornou um best-seller internacional e no ano seguinte foi lançado nos Estados Unidos como Grand Hotel. Robert Rubin, sócio de Mayer em Nova York, costurou um acordo para que a Metro ajudasse a financiar uma versão na Broadway em troca dos direitos da obra. A peça, escrita por William A. Drake, estreou em novembro de 1930 e também foi um enorme sucesso, mas o acordo estipulava que o filme deveria aguardar pelo menos quinze meses.

Vicki Baum

Quase um ano depois, Thalberg pôs mãos à obra: convocou o diretor Edmund Goulding (conhecido como “Domador de Leões” por sua habilidade para lidar com estrelas temperamentais), o produtor Paul Bern (que teve uma função quase figurativa na produção) e escalou sete dos principais nomes da casa: Greta Garbo, os irmãos John e Lionel Barrymore, Joan Crawford, Wallace Beery, Lewis Stone e Jean Hersholt.

O filme começa com a agitadíssima central telefônica do Grande Hotel, o mais caro de Berlim. Em seguida vemos uma série de personagens falando ao telefone, apresentando ao espectador as aflições que moverão a trama. Em outro canto, um homem com uma grande mancha no rosto diagnostica: “Grande Hotel. Gente indo, vindo… Nunca acontece nada.”

Ele não poderia estar mais enganado. A partir daí, tudo acontecerá no lobby, nos corredores e nos quartos: romances avassaladores, jogatinas, bebedeiras, negociatas, conflito de classes, furtos e até um assassinato.

O homem com a mancha no rosto é o dr. Otternschlag (Lewis Stone), um veterano médico ferido na Primeira Guerra que agora reside permanentemente no Grande Hotel, onde assiste a tudo quase sempre bêbado e alheio à realidade. Ele é um dos sete personagens cujos caminhos se cruzarão no hotel. Em comum entre eles, o desespero e a decadência que contrastam com o requinte do local. Grusinskaya (Garbo) é uma depressiva bailarina russa em fim de carreira que encontra alento no romance com o barão Felix von Geigern (John Barrymore), um nobre falido que se tornou ladrão de joias. Ele faz amizade com Otto Kringelein (Lionel Barrymore), um humilde contabilista que tem uma doença terminal e resolveu juntar suas economias, mandar tudo às favas e aproveitar o que lhe resta de vida. O patrão de Kringelein, o diretor-geral Preysing (Beery), também está hospedado lá, ansioso para fechar um grande negócio para sua empresa, e conta com os serviços (e algo mais) da bela estenógrafa Flaemmchen (Crawford), uma moça batalhadora e nada ingênua. Por fim, Senf (Hersholt), o carregador de bagagens, aguarda notícias do nascimento do filho.

O superelenco do filme: Lewis Stone, Lionel Barrymore, Wallace Beery, Joan Crawford, Greta Garbo, John Barrymore e Jean Hersholt

Montar o elenco estrelado não foi tarefa simples. Garbo relutou em dividir o protagonismo com os outros e achava que, aos 26 anos, estava muito velha para interpretar uma bailarina. Thalberg a convenceu dando-lhe, além do primeiro lugar nos créditos, o privilégio de usar apenas o sobrenome.

A diva sueca também queria seu antigo amante John Gilbert no papel do barão, mas ele vinha em trajetória descendente desde o fim do cinema mudo. A MGM então escolheu John Barrymore, que já vivera um ladrão de joias em Arsène Lupin (1932), lançado um mês antes de Grande Hotel. Barrymore ficou tão animado com a chance de trabalhar com Garbo que, contrariando seus hábitos, aceitou fechar um acordo para três filmes.

Quando Greta se atrasou no primeiro dia de filmagem, John logo ficou desconfiado. Ambos tinham ouvido comentários pouco elogiosos um sobre o ego do outro. No entanto, quando lhe avisaram que ela o aguardava para mostrar o set, tudo mudou.

“Hoje é um grande dia para mim. Como esperei para trabalhar com o grande John Barrymore!”, disse Garbo.

O ator beijou a mão dela e respondeu: “Minha esposa e eu achamos você a mulher mais encantadora do mundo!”

E assim a mágica aconteceu. Durante as filmagens, Greta pediu que iluminassem o set de vermelho para dar um clima romântico, e os dois continuaram se beijando mesmo após o diretor gritar “Corta!” Ela ficou tão absorta que, excepcionalmente, até se permitiu fotografar ao lado de John nos bastidores.

Greta Garbo (Grusinskaya) e John Barrymore (Barão von Geigern)

As cenas entre O Perfil e a Esfinge Sueca foram alvo de grande publicidade e também de debate entre Goulding e Thalberg durante a pré-produção. O primeiro achava que o casal já deveria trocar juras de amor na primeira noite, mas que o espectador só deveria saber que o barão entrara no quarto para roubar na manhã seguinte. O segundo achava o contrário. Ganhou o produtor.

Realçada pela fotografia de William H. Daniels, seu cameraman favorito, Garbo tem uma das performances mais dramáticas e vigorosas (para não dizer espalhafatosas) de sua carreira, indo da melancolia ao êxtase, cheia de trejeitos e lamúrias. É nesse filme que ela profere a frase que se tornou sua marca registrada: “I want to be alone!”

Quem também precisou ser convencido a atuar no filme foi Wallace Beery. Ele achou que o papel do magnata era antipático e prejudicaria sua imagem. Thalberg prometeu que o personagem seria o único a falar com sotaque alemão, e o ator finalmente concordou.

Joan Crawford (Flaemmchen) e Wallace Beery (Preysing)

Uma cena com Beery também gerou divergência no script: o assassinato de von Geigern por Preysing. O produtor queria que o empresário matasse o barão com um revólver. O diretor defendia que ele usasse um telefone, que, além de ser um motivo recorrente na história, tornaria o ato mais impulsivo e brutal. Dessa vez, Goulding levou a melhor.

Buster Keaton era a opção de Goulding para viver Kringelein. Thalberg aprovou a ideia, mas Mayer vetou, devido ao alcoolismo e à conduta do comediante no set. Quando John Barrymore foi convidado para interpretar von Geigern, uma das condições foi que seu irmão Lionel fosse escalado. Ambos haviam contracenado em Arsène Lupin e agradado ao estúdio. Assim, Lionel ganhou o papel do doente terminal e teve um dos desempenhos mais marcantes do filme.

As cenas em que os Barrymore aparecem juntos estão entre as mais tocantes de Grande Hotel. Não só por se tratar de dois grandes baluartes do teatro e do cinema americanos, mas porque o afeto entre eles transparece tanto quanto o do barão pelo contabilista. O espectador nem precisa saber que os dois são irmãos para percebê-lo.

John Barrymore, Lionel Barrymore (Kringelein) e Lewis Stone (Dr. Otternschlag)

Joan Crawford também hesitou em aceitar o papel de Flaemmchen, temendo que muitas de suas cenas fossem censuradas, mas o produtor lhe garantiu que tudo seria feito com o máximo bom gosto. O receio tinha razão de ser: Joan protagoniza os momentos mais provocantes e ousados do filme, particularmente com von Geigern e Preysing, com diálogos insinuantes, flertes, pernas à mostra e camisolas.

O sucesso do filme ajudou a alavancar a carreira da atriz, pelo que mais tarde ela se disse grata por ter participado, mas seu temor se confirmou: algumas cenas realmente foram cortadas pelos órgãos de censura em vários estados americanos. E o Código Hays ainda nem havia sido reforçado…

Algumas fontes dizem – embora outras desmintam – que, após uma exibição de teste em Monterey, Califórnia, Thalberg decidiu filmar algumas cenas adicionais com Garbo para evitar que ela fosse ofuscada por Crawford. Se for verdade, a medida foi em vão: Joan de fato rouba a cena, com um desempenho forte, ousado e sensual, belíssima com seus olhos expressivos e sua inconfundível boca delineada pelo batom. O curioso é que as duas atrizes não contracenam em nenhum momento do filme.

Joan Crawford

Afora o elenco, Grande Hotel foi um marco no quesito direção de arte. Os elegantes sets criados por Cedric Gibbons, um dos maiores mestres no assunto em toda a história de Hollywood, mudaram para sempre a forma de se criar sets no cinema. O destaque é a estrutura circular do hotel, que vista do alto, permite mostrar um panorama dos interiores do edifício.

A recepção circular do Grande Hotel

O filme estreou em 12 de abril de 1932, em Nova York, e uma grande premiere ocorreu no Grauman’s Chinese Theatre, em Hollywood. A entrada reproduzia a recepção do Grande Hotel, na qual as várias celebridades presentes assinaram um livro de registro.

Os organizadores prometeram que, após a exibição do filme, haveria uma apresentação de Greta Garbo – que, como de costume, nem compareceu ao evento. No lugar dela, quem subiu ao palco foi Wallace Beery, vestido de mulher e exclamando: “I want to be alone!” A plateia não achou muita graça.

Grande Hotel foi a maior bilheteria de 1932, arrecadando cinco vezes mais do que custou. No final do ano, ganhou o Oscar de Melhor Filme, sendo até hoje o único a levar a principal estatueta da Academia sem ter recebido nenhuma outra indicação.

Mais do que isso, se tornou uma referência, praticamente inaugurando um novo gênero cinematográfico. A partir de então, todo filme cuja trama seja formada por diversos subenredos convergentes ou que tenha um elenco recheado de astros é comparado a Grande Hotel.

Ficha técnica:
Diretor: Edmund Goulding
Elenco: Greta Garbo, John Barrymore, Joan Crawford, Wallace Beery, Lionel Barrymore, Lewis Stone, Jean Hersholt, Robert McWade, Purnell Pratt, Ferdinand Gottschalk, Rafaela Ottiano, Morgan Wallace, Tully Marshall, Frank Conroy, Murray Kinnell e Edwin Maxwell
Roteiro: William A. Drake (baseado na adaptação teatral do romance de Vicki Baum)
Fotografia: William H. Daniels
Direção de arte: Cedric Gibbons
Produtor: Irving Thalberg
Estúdio: MGM
País: EUA
www.imdb.com/title/tt0022958

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