Jean Arthur

“Acho que me tornei atriz porque não queria ser eu mesma.”

Jean Arthur

Jean Arthur teve um início titubeante no cinema mudo, sofria um medo crônico de palco e tinha horror a entrevistas. Apesar disso, se tornou a rainha das screwball comedies dos anos 1930 e uma das maiores estrelas de Hollywood, culminando com uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

Jean nasceu Gladys Georgianna Greene em Plattsburgh, Nova York, no dia 17 de outubro de 1900. Tinha três irmãos mais velhos e viveu uma juventude itinerante, mudando frequentemente de cidade, devido ao trabalho do pai, que era fotógrafo.

Morando em Manhattan na adolescência, abandonou o colégio no primeiro ano do ensino secundário e passou a trabalhar como estenógrafa. Na mesma época, o pai e os irmãos se alistaram na I Guerra Mundial. Seu irmão Albert morreu em 1926 de problemas respiratórios causados por um ataque com gás mostarda durante a guerra.

No início dos anos 1920, quando trabalhava como modelo comercial, Gladys foi descoberta pela Fox Film, com a qual assinou um contrato de um ano. Adotando o nome artístico Jean Arthur – em homenagem a seus maiores heróis, Joana d’Arc e o Rei Artur –, estreou em Sota, cavalo e rei (Cameo Kirby, 1923), estrelado por John Gilbert e dirigido por John Ford.

Em seguida recebeu o papel principal em The Temple of Venus (1923), mas, no terceiro dia de filmagem, insatisfeito com sua atuação, o diretor Henry Otto a substituiu por Mary Philbin. A própria Jean reconheceu que Otto tinha razão. Depois disso ela considerou deixar a indústria cinematográfica, mas ficou para cumprir o contrato, aparecendo em alguns curtas-metragens de comédia.

Em 1924, Jean foi parar na Action Pictures. Ganhando 25 dólares por filme, trabalhou em mais de vinte westerns B num período de dois anos. Também atuou em faroestes independentes e de outros estúdios do Poverty Row (a “ala pobre” de Hollywood), além de uma ponta sem crédito em Sete oportunidades (Seven Chances, 1925), dirigido e estrelado por Buster Keaton.

Em 1927, começou a ganhar mais destaque em filmes como Caçadoras de maridos (Husband Hunters), Ferraduras felizardas (Horse Shoes) – um sucesso do qual participou por insistência do comediante Monty Banks – e O Araraquera (The Poor Nut) – em que ganhou o papel principal do diretor Richard Wallace, embora a Fox desejasse contar com uma atriz mais experiente. Ainda assim, seu desempenho continuou sendo criticado.

No ano seguinte, ela atuou em O bate-bola do amor (Warming Up), com o astro Richard Dix, para a Famous Players-Lasky (futura Paramount). Divulgado como a primeira produção falada do estúdio (na verdade, foi lançado em versões muda e sonora, sendo que esta só tinha música e efeitos, sem diálogos), foi um sucesso de público. Dessa vez, a performance de Arthur foi elogiada, o que lhe rendeu um contrato de três anos a 150 dólares por semana.

Na Paramount, Jean fez seu primeiro filme realmente falado, O drama de uma noite (The Canary Murder Case, 1929), com William Powell e Louise Brooks, e recebeu críticas positivas por seu trabalho em O misterioso Dr. Fu Manchu (The Mysterious Dr. Fu Manchu, 1929).

Na mesma época, se envolveu com o jovem produtor David O. Selznick, ligação que foi crucial para alavancar sua carreira. Ela foi selecionada como uma das WAMPAS Baby Stars daquele ano e conseguiu um papel em Uma pequena das minhas (The Saturday Night Kid, 1929). Segundo o diretor Edward Sutherland, Arthur era tão boa que foi necessário cortar várias cenas para evitar que ela ofuscasse a estrela Clara Bow.

No início da era falada, era comum os estúdios buscarem atores com experiência teatral, que Jean não tinha. Quando a relação com Selznick terminou, a carreira dela começou a oscilar e, seguindo o conselho de John Cromwell, que a dirigiu em Caminhos da sorte (Street of Chance, 1930), Arthur deixou Hollywood e fez sua primeira peça, Spring Song, que ficou dez dias em cartaz em Pasadena. Ao retornar, decidiu tingir os cabelos de louro na tentativa de aumentar seu sex appeal, mas a medida não surtiu muito efeito. Ao fim do contrato com a Paramount, em meados de 1931, ela foi liberada e voltou para Nova York.

Após atuar em uma adaptação de Lisístrata em janeiro de 1932, Jean fez sua estreia na Broadway com Foreign Affairs, ao lado de Dorothy Gish e Osgood Perkins, recebendo elogios por seu trabalho. No fim do ano, regressou a Hollywood, onde fez The Past of Mary Holmes (1933).

De outubro a dezembro de 1933, trabalhou em The Curtain Rises, seu primeiro trabalho como protagonista no teatro. O êxito nos palcos a ajudou a ganhar confiança no próprio desempenho. Novamente em Hollywood, foi convidada pela Columbia Pictures para atuar em Fatalidade (Whirlpool, 1934). Durante a produção, o estúdio lhe ofereceu um contrato de cinco anos.

Sua carreira no cinema começou a decolar quando ela contracenou com Edward G. Robinson em O homem que nunca pecou (The Whole Town Is Talking, 1935), mais uma vez com direção de Ford. Jean vive uma mulher trabalhadora e determinada, tipo que se tornou sua persona nas telas daí em diante. Embora os filmes seguintes não tenham feito o mesmo sucesso, suas performances continuaram sendo bem recebidas.

O pulo do gato veio quando Frank Capra a escalou para o papel feminino principal de O galante Mr. Deeds (Mr. Deeds Goes to Town, 1936), com Gary Cooper. Sucesso mundial, a produção ganhou o Oscar de Melhor Diretor e recebeu mais quatro indicações, incluindo Melhor Filme. Só naquele ano, Jean faturou 119 mil dólares, mais que o presidente dos Estados Unidos e o astro do beisebol Lou Gehrig juntos.

Com Gary Cooper em O galante Mr. Deeds

Porém, o estrelato teve uma consequência que ela abominava: a exposição pública. Bastante reservada, Arthur não comparecia aos eventos sociais de Hollywood e dizia preferir que lhe cortassem a garganta a ter que dar entrevistas. A aversão à publicidade gerou comparações com Greta Garbo.

Além disso, Jean sofria um extremo medo de palco. Segundo Capra, que fez três filmes com a atriz, ela chegava a vomitar no camarim entre uma cena e outra, mas em seguida voltava para o set e fazia uma tomada perfeita. Em 1945, ela abandonou a peça Born Yesterday antes de chegar à Broadway, dando lugar a uma desconhecida Judy Holliday, que depois ganhou o Oscar pela versão cinematográfica da obra.

Nessa época, sua relação com Harry Cohn, chefe da Columbia, ia de mal a pior, levando-a a quase romper o contrato com o estúdio. Após o sucesso de Madame Mistério (The Ex-Mrs. Bradford, 1936), para o qual ela foi emprestada à RKO, Jean pretendia tirar férias, mas Cohn a escalou em mais dois filmes, Aventura em Nova York (Adventure in Manhattan, 1936) e Mais do que secretária (More Than a Secretary, 1936). Entre ambos, em empréstimo à Paramount, Arthur voltou a contracenar com Gary Cooper – que ela descreveu como seu melhor parceiro – em Jornadas heroicas (The Plainsman), de Cecil B. DeMille, vivendo a legendária Jane Calamidade.

Em 1937, apareceu com Charles Boyer em A história começou à noite (History Is Made at Night), de Frank Borzage, e com Ray Milland em Garota de sorte (Easy Living), de Mitchell Leisen.

Com Charles Boyer em A história começou a noite

No ano seguinte, estrelou outra comédia maluca de Capra, Do mundo nada se leva (You Can’t Take It with You), ao lado de James Stewart. A parceria mais uma vez foi um sucesso, ganhando os Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor.

Tanto sucesso que Capra voltou a escalar Jean e Jimmy no clássico A mulher faz o homem (Mr. Smith Goes to Washington, 1939). O filme ganhou o Oscar de Melhor História Original e foi indicado em outras dez categorias (incluindo Melhor Filme), além de ser a terceira maior bilheteria de Hollywood na década.

No entanto, a química entre o par de astros não era das melhores. Sete anos depois, já semiaposentada do cinema, Jean recusou o convite de Capra para viver a esposa de Stewart em A felicidade não se compra (It’s a Wonderful Life, 1946). O motivo seria a faculdade, mas há quem diga que ela não quis voltar a trabalhar com o ator.

Em 1939, a popularidade de Jean era tal que ela foi uma das quatro finalistas na longa seleção para o papel de Scarlett O’Hara em …E o vento levou (Gone with the Wind) – produzido pelo seu antigo affair, David O. Selznick. No mesmo ano ela atuou com Cary Grant e a novata Rita Hayworth em O paraíso infernal (Only Angels Have Wings), de Howard Hawks, outro grande sucesso de público.


Jean reencontrou Grant, além de Ronald Colman, em E a vida continua (The Talk of the Town, 1942), de George Stevens. Graças ao embate com Harry Cohn, a atriz ganhou apenas 50 mil dólares pelo filme, ao passo que seus colegas receberam mais que o dobro.

Apesar das desavenças com o chefe, Jean se tornou a maior estrela da Columbia. Novamente sob a batuta de Stevens, levou uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por Original pecado (The More the Merrier, 1943). O diretor a considerou uma das maiores comediantes que já apareceram nas telas.

Mas isso não impediu que Arthur, pouco afeita à exposição hollywoodiana, decidisse abandonar o cinema quando seu contrato expirou, em 1944. Ao se despedir, ela teria saído correndo pelas ruas do estúdio gritando: “Estou livre! Estou livre!”

Depois disso, ela só atuou em mais dois filmes: A mundana (A Foreign Affair, 1948), com Marlene Dietrich e direção de Billy Wilder, e o clássico western Os brutos também amam (Shane, 1953), seu único trabalho em cores, o terceiro com George Stevens e a maior bilheteria de sua carreira.

Arthur sonhava em interpretar dois personagens: Peter Pan e Joana d’Arc. Realizou os dois sonhos no teatro, respectivamente na adaptação musical de Leonard Bernstein em 1950 e em Saint Joan, de George Bernard Shaw, em 1954. Porém, abandonou a segunda em função de um colapso nervoso e de desentendimentos com o diretor Harold Clurman.

Com James Stewart em A mulher faz o homem

Após onze anos de reclusão, Jean reapareceu em 1965 em um episódio do seriado de TV Gunsmoke. No ano seguinte, ganhou sua própria série, The Jean Arthur Show, na qual interpretava a advogada Patricia Marshall. No entanto, o programa durou somente doze episódios.

Em 1968, Arthur se tornou professora de drama na faculdade de artes Vassar College, uma vaga possivelmente criada para ela. Segundo seus contemporâneos, ela era tímida, interagia pouco com os demais, detestava pomposidade, não gostava de falar sobre seus tempos de Hollywood e, no início, muitos alunos nem a reconheciam. Após quatro anos em Vassar, Jean lecionou na North Carolina School of the Arts, onde ficou até 1974.

Seu último trabalho como atriz foi a peça First Monday in October, com Melvyn Douglas, que foi encenada onze vezes em Cleveland em 1975 antes de entrar em cartaz na Broadway com Henry Fonda e Jane Alexander nos papéis principais.

Mural em homenagem a Jean em sua cidade natal, Plattsburgh

Jean foi casada duas vezes e não teve filhos. O primeiro matrimônio, com o fotógrafo Julian Anker, em 1928, foi anulado após um dia. O segundo, com o ator e produtor Frank Ross, que atuou com ela em Uma pequena das minhas, durou de 1932 a 1949.

Jean Arthur passou os últimos anos de vida em sua casa de praia em Carmel, Califórnia, onde morreu em 19 de junho de 1991, aos 90 anos.

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