Branca de Neve e os Sete Anões

Snow White and the Seven Dwarfs

1937

Sinopse: A beleza de Branca de Neve desperta a inveja de sua madrasta, a Rainha Má, que envia um caçador para matá-la. No entanto, o homem não tem coragem de cumprir a ordem e manda a princesa fugir para a floresta, onde ela passa a viver com sete anões.

Não seria exagero dizer que Branca de Neve e os Sete Anões é o primeiro filme de nove entre dez crianças nascidas após 1937. Porém, muito mais que um simples filme infantil, ele é um marco na história do cinema, uma das produções que definiram o curso da sétima arte nas décadas seguintes. Foi o primeiro longa-metragem de animação da era sonora e o primeiro da história em Technicolor, além de ser considerado um dos primeiros blockbusters de Hollywood.

Desde a criação do Mickey Mouse, a Disney se estabeleceu como o principal estúdio de curtas animados de Hollywood, trazendo inovações narrativas e técnicas e ganhando os primeiros Oscars da categoria. Porém, Walt Disney sabia que, para aumentar os lucros e o prestígio da companhia, era necessário dar um passo além.

Em 1933, ele planejou uma adaptação de Alice no País das Maravilhas, que misturaria animação e live-action, com a estrela do cinema mudo Mary Pickford. Alguns testes em cores chegaram a ser feitos, mas a Paramount saiu na frente e lançou sua própria versão da história, fazendo Disney abandonar o projeto.

Mary Pickford como Alice

Mas ele estava determinado a fazer seu primeiro longa e, no ano seguinte, ele anunciou o plano ao The New York Times. Era uma grande aposta, e a imprensa não deu muito crédito, rotulando a produção de “o devaneio de Disney”. Até seu irmão e sócio, Roy, e sua esposa, Lillian, tentaram convencê-lo a desistir. No final, o orçamento, originalmente estimado em 250 mil dólares, chegaria a quase 1,5 milhão, um valor estratosférico para um filme em 1937. Walt teve que hipotecar sua casa e pedir um empréstimo ao Bank of America.

O conto dos irmãos Grimm já havia sido levado para o cinema pelo menos duas vezes. Disney se inspirou no filme de 1916, com Marguerite Clark como Branca de Neve, que ele vira na adolescência. No início de 1934, ele reuniu sua equipe e encenou a história como a vislumbrava. Em 9 de agosto, 21 páginas de notas haviam sido compiladas, com sugestões de personagens, situações e piadas.

Inicialmente, Disney via os anões como a principal atração do filme. Cada um ganhou nome e personalidade própria, o que não existia no conto original. Chegou a ser feita uma lista com 50 sugestões de nomes, que foram sendo eliminados até restarem os sete que entraram na versão final.

Walt Disney apresenta os anões no trailer do filme

Outros personagens também passaram por vários estágios de desenvolvimento. Branca de Neve, desenhada por Grim Natwick, um dos criadores da Betty Boop, chegou a ter uma forma mais voluptuosa, mas Disney achava que ela deveria parecer mais inocente e pura. A madrasta, ao contrário, originalmente seria baixinha e gordinha, mas evoluiu para uma mulher esguia e de beleza imponente. O Príncipe seria um tipo mais cômico e teria um destaque maior na história, inclusive sendo feito prisioneiro pela Rainha, mas acabou tendo sua participação bastante reduzida.

Esboço de uma das cenas do filme

Disney incentivou todo o estúdio a contribuir para a história, oferecendo cinco dólares para cada piada sugerida. No entanto, mais tarde passou a temer que essa abordagem mais bem-humorada diminuísse a plausibilidade do enredo e decidiu mudar o foco para a relação entre Branca de Neve a Rainha.

Duas cenas envolvendo os anões foram concluídas, mas acabaram cortadas do filme. Em uma, Mestre e Zangado têm uma briga a respeito da permanência de Branca de Neve entre eles. Na outra, os sete tomam sopa ruidosamente, sendo repreendidos pela princesa. Outras ideias também foram descartadas, como a tentativa da Rainha de matar Branca de Neve com um pente envenenado (de acordo com a história original).

O artista suíço Albert Hurter foi a principal autoridade no aspecto visual do filme. Todos os designs, dos personagens às rochas no fundo, foram submetidos à sua aprovação. O húngaro Ferdinand Horvath e o sueco Gustaf Tenggren também deram importantes contribuições, além do americano Joe Grant, que criou a aparência da bruxa.

Ainda em 1932, o animador Art Babbitt, então recém-contratado pela Disney, havia estabelecido em sua casa aulas semanais de arte com modelos vivos, que permitiram aos seus colegas estudar a anatomia e os movimentos, aprendendo a reproduzi-los com mais realismo. Três semanas depois, a pedido de Walt Disney, essas aulas passaram a ocorrer no estúdio. A dançarina Marge Belcher, quem em 1937 se casou com Babbitt, serviu como modelo para Branca de Neve. Em 1947 ela se casaria com o coreógrafo Gower Champion, tornando-se famosa como Marge Champion.

O curta A Deusa da Primavera (The Goddess of Spring, 1934) também é considerado um importante passo no desenvolvimento do filme, por dar aos artistas a chance de praticar a animação de personagens humanos.

Em 1935, Walt, Roy e suas respectivas esposas passaram quase três meses na Europa, trazendo de volta mais de 300 livros de diversos ilustradores para a biblioteca do estúdio. Disney também recomendou a seus animadores que vissem filmes como Romeu e Julieta (Romeo and Juliet, 1936), O médico e o monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1931), O gabinete do dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, 1920) e Nosferatu (Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, 1922).

A influência europeia, em especial do expressionismo alemão (cabe lembrar que o próprio conto é de origem alemã), pode ser vista na sequência em que Branca de Neve se embrenha na floresta e na transformação da Rainha em bruxa. Outra cena particularmente tenebrosa é a da morte da bruxa, em que os abutres observam com olhar faminto sua queda e voam lentamente em direção a ela.

O estúdio também desenvolveu uma câmera multiplano, que permitia que vários desenhos passassem diante dela em velocidades diferentes, dando um senso de profundidade à cena.

As canções são de Frank Churchill e Larry Morey (que também foi um dos diretores do filme). Entre elas se destacam “Someday My Prince Will Come” e “Heigh-Ho”, que se tornaram clássicos. A trilha incidental foi composta por Paul J. Smith e Leigh Harline. Branca de Neve foi o primeiro filme a ter uma trilha sonora lançada comercialmente.

A cantora Adriana Caselotti foi escolhida para ser a voz da protagonista. Com formação lírica, ela havia trabalhado como corista e cantora de sessão na MGM. Porém, seu contrato com a Disney determinava que ela só poderia emprestar sua voz à Branca de Neve, o que impediu que ela desenvolvesse uma carreira no cinema ou nos palcos.

Adriana Caselotti

Pinto Colvig fez as vozes de Zangado e Soneca. Artista de circo, cartunista e dublador, Colvig também dublava Pateta e Pluto para a Disney e foi o primeiro intérprete do palhaço Bozo.

A atriz Lucille La Verne dublou a Rainha e a bruxa. Durante as gravações, o diretor William Cottrell e Joe Grant acharam que a voz da segunda estava muito suave. La Verne deixou o recinto e, ao voltar, fez a voz perfeita. Como? Tirando a dentadura.

Vale mencionar também Harry Stockwell, pai dos atores Guy e Dean Stockwell, como o Príncipe; Billy Gilbert como Atchim e Moroni Olsen como o Espelho Mágico.

A dublagem brasileira contou com grandes vozes da nossa música, entre elas Dalva de Oliveira (que, curiosamente, dublou apenas os diálogos da Branca de Neve, ficando as músicas a cargo de Maria Clara Tati Jacome), Carlos Galhardo (Príncipe) e Almirante (Espelho Mágico e Mestre). A direção musical foi de João de Barro/Braguinha. Infelizmente, como é de praxe no nosso país, essa dublagem não foi bem preservada e se deteriorou, tendo que ser substituída nos anos 1960.

A première ocorreu em 21 de dezembro de 1937, no Carthay Circle Theatre, em Los Angeles, sendo ovacionado de pé por diversas celebridades de Hollywood, algumas delas às lágrimas. Em janeiro de 1938 o filme estreou em Nova York e Miami e, em fevereiro, no resto dos Estados Unidos. Foi um sucesso imediato e quase unânime de público e crítica, que enalteceu a história e o realismo da animação (embora outros tenham criticado esse fator, como o caricaturista Al Hirschfeld). Também foi elogiado por cineastas como Charlie Chaplin e Sergei Eisenstein, que o considerou o melhor filme já feito.

A trilha sonora de Smith e Harline foi indicada ao Oscar, perdendo para Charles Previn, de 100 homens e uma menina (One Hundred Men and a Girl, 1937). No ano seguinte, porém, Walt Disney recebeu de Shirley Temple um prêmio honorário da Academia, na forma de uma estatueta de tamanho normal e sete miniaturas.

Disney recebe o Oscar Honorário de Shirley Temple

Branca de Neve arrecadou quase 8 milhões de dólares no mundo, tornando-se a maior bilheteria do cinema americano até então – dois anos depois, foi superado por …E o vento levou (Gone with the Wind, 1939). O lançamento foi acompanhado por uma forte campanha de merchandising, com a venda de toda sorte de artigos relacionados aos personagens. Com os lucros, Disney construiu um estúdio de 4,5 milhões de dólares em Burbank, Califórnia, que é a sede da empresa até hoje.

Ao longo dos anos o filme foi relançado nos cinemas oito vezes – em 1944, 1952, 1958, 1967, 1975, 1983, 1987 e 1993 –, até sair em VHS pela primeira vez em 1994.

O vídeo abaixo traz um making of completo do filme (em inglês), incluindo históricas imagens dos bastidores da produção:


Ficha técnica:
Diretores: William Cottrell, Wilfred Jackson, Larry Morey, Perce Pearce e Ben Sharpsteen (supervisão de David Hand)
Elenco (vozes): Adriana Caselotti, Lucille La Verne, Pinto Colvig, Roy Atwell, Harry Stockwell, Stuart Buchanan, Eddie Collins, Billy Gilbert, Otis Harlan, Scotty Mattraw e Moroni Olsen
Roteiro: Dorothy Ann Blank, Richard Creedon, Merrill De Maris, Otto Englander, Earl Hurd, Dick Rickard, Ted Sears e Webb Smith (baseado no conto de fadas dos Irmãos Grimm)
Música: Frank Churchill, Paul J. Smith e Leigh Harline
Produtor: Walt Disney
Estúdios: Walt Disney Studios/RKO Radio Pictures
País: EUA
www.imdb.com/title/tt0029583

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