Os Irmãos Marx

Não há quem não conheça os Irmãos Marx. Cada um com sua personalidade e seu figurino únicos, eles se tornaram sinônimo de comédia e estão entre aqueles artistas que entram no inconsciente coletivo do público, mesmo de quem nunca viu seus filmes.

Tudo começou com um casal de imigrantes judeus em Nova York: a alemã Miene “Minnie” Schönberg e Sam “Frenchy” Marx, natural da Alsácia. Eles tiveram seis filhos homens, dos quais cinco vingaram: Leonard Joseph (1887-1961), Adolph (que depois mudou seu nome para Arthur; 1888-1964), Julius Henry (1890-1977), Milton (1892/93-1977) e Herbert Manfred (1901-1979). O primogênito, Manfred, morreu ainda bebê – Herbert ganhou o segundo nome em homenagem a ele. Uma prima, Pauline, foi adotada por Minnie e Frenchy.

Minnie vinha de uma família de artistas e era irmã do comediante Al Shean, que nas décadas de 1910 e 1920 foi um astro do vaudeville formando a dupla Gallagher & Shean ao lado de Ed Gallagher. Ela foi a grande força motriz da carreira artística dos filhos, tornando-se sua empresária sob o nome Minnie Palmer, para esconder o fato de que era mãe dos rapazes.

Milton foi o primeiro a subir ao palco, em 1899, com seu tio ventríloquo Henry Shean. Mas, para os outros irmãos, antes da comédia veio a música. Leonard tocava piano; Julius cantava e tocava violão. Herbert também era vocalista. Já Adolph aprendeu seis instrumentos, destacando-se na harpa. Julius estreou no vaudeville em 1905. Cinco anos depois, ele, Milton, Adolph, sua tia Hannah, Minnie e Mabel O’Donnell já cantavam juntos como The Six Mascots.

A transição para a comédia veio em torno de 1910, com o esquete Fun in Hi Skule, que se tornou Mr. Green’s Reception e, já em 1914, Home Again. Essa última versão foi escrita por Al Shean e marcou a estreia de Herbert, no que provavelmente foi a única vez em que os cinco irmãos dividiram o palco.

A família Marx por volta de 1915: Julius, Milton, Minnie, Herbert, Frenchy, Leonard e Arthur

Os apelidos que consagraram os irmãos foram cunhados pelo monologuista Art Fisher durante um jogo de pôquer. Existem várias teorias para explicá-los:

Chico (Leonard) – por ser mulherengo e viver atrás das garotas (chicks, na gíria americana);
Harpo (Arthur) – por causa da harpa;
Groucho (Julius) – por ser muito ranzinza (grouchy, em inglês). Também é possível que se trate de uma referência à tirinha em quadrinhos Sherlocko the Monk, que tinha um personagem chamado Groucho, ou a uma grouch bag, espécie de bolsa a tiracolo que ele usava para carregar dinheiro;
Gummo (Milton) – pelo hábito de usar sapatos de borracha (gumshoes, em inglês);
Zeppo (Herbert) – é o único que não foi dado por Fisher. Segundo Harpo, era uma alusão a Mr. Zippo, um chimpanzé que se apresentava no vaudeville (o caçula não gostou muito da comparação e alterou para Zeppo). Já Groucho disse que a referência era ao zepelim, que fez seu primeiro voo sete meses antes de Herbert nascer. Já Maxine, filha de Chico, afirmou que o apelido nasceu de uma brincadeira de “Zeke e Zeb”, típica do Meio-Oeste americano. Certa vez, Herbert chamou Leonard de Zeke, que respondeu chamando-o de Zeb. Zeb virou Zep e, finalmente, Zeppo.

A partir de Cinderella Girl (1918) – um dos poucos fracassos da trupe –, Zeppo substituiu Gummo, que fora servir na I Guerra Mundial. Segundo Zeppo, Minnie insistiu para que ele entrasse para poder manter o nome The Four Marx Brothers. Ao ser dispensado do exército, Gummo se tornou empresário e foi agente dos irmãos por muitos anos. Foi o único que não atuou em nenhum dos filmes.

Já famosos no vaudeville, Os Quatro Irmãos Marx chegaram à Broadway em 1924, com a comédia musical I’ll Say She Is. O show foi escrito por Will B. Johnstone, que mais tarde seria um dos roteiristas de dois filmes do grupo: Os quatro batutas (Monkey Business, 1931) e Gênios da pelota (Horse Feathers, 1932). Em seguida vieram The Cocoanuts (1925) e Animal Crackers (1928), que mais tarde seriam adaptados para o cinema. Ambos foram escritos por George S. Kaufman e Morrie Ryskind, que também foram importantes colaboradores dos Marx em seus filmes.

O cinema era um grande sonho dos irmãos. Em 1921 eles mesmos produziram um curta-metragem, Humor Risk. A história do filme é cheia de mistério. Aparentemente ele só teve uma exibição, em uma matinê para crianças no Bronx, e se perdeu sem ter sido lançado. O destino é incerto: ele pode ter sido jogado fora por engano ou Groucho pode ter queimado o negativo, frustrado com a má recepção. Também há boatos de que no final da década ele pode ter sido lançado por pequenas distribuidoras de curtas-metragens cômicos sob outros títulos.

Ao longo dos anos 1920, o grupo teve outros projetos cinematográficos, mas nenhum saiu do papel. Harpo e Zeppo estrearam separadamente nas telas em 1925, em Too Many Kisses e A Kiss in the Dark, respectivamente.

Só em 1929 o quarteto estrelou seu primeiro filme, rodado no estúdio da Paramount Pictures em Nova York: Hotel da fuzarca (The Cocoanuts). Por ironia do destino, Minnie faleceu pouco mais de um mês após o lançamento.

Chico, Zeppo, Groucho e Harpo

No ano seguinte foi a vez de Os galhofeiros (Animal Crackers). O sucesso das duas produções sacramentou o humor anárquico e nonsense dos Marx, que avacalhavam quem cruzasse seu caminho, sem poupar ninguém. Também apresentou ao mundo as personalidades e caracterizações singulares dos quatro irmãos, criadas por Al Shean e desenvolvidas desde os tempos de vaudeville:

Groucho – Era o líder da trupe. Gostava de tirar vantagem e era mestre em comentários sarcásticos e insultos. Costumava andar curvado e usava óculos de aro grosso, sobrancelhas frondosas, um espesso bigode pintado e charuto. Sua figura se tornou tão popular que pelo menos desde os anos 1940 existem óculos imitando-a.

Chico – Usava roupas esfarrapadas e um chapéu tirolês. Seu personagem típico era um impostor de origem italiana rural, que muitas vezes tentava passar a perna em Groucho, geralmente em conluio com Harpo. Era um excelente pianista.

Harpo – Mudo e com cabelo de anjinho, tinha um ar de inocência, mas era o mais travesso dos irmãos. Seu estilo de humor era mais visual, baseado na pantomima. Trazia sempre consigo uma buzina e usava cartola e um sobretudo, no qual escondia os mais improváveis artefatos para fazer suas brincadeiras. Outra de suas marcas registradas era a harpa, que ele tocou em vários filmes.

Zeppo – Era o único que se apresentava de cara limpa, sem figurinos exóticos. Interpretava personagens normais, às vezes românticos, em contraponto à insanidade dos outros três. Apesar disso, na vida pessoal Zeppo era visto como o mais engraçado e era capaz de substituir um dos irmãos quando necessário.

Juntou-se a eles a atriz Margaret Dumont, que trabalhou em sete dos seus treze filmes, tornando-se, nas palavras de Groucho, “praticamente o quinto irmão Marx”.

Os quatro batutas foi o terceiro filme e é considerado um dos melhores dos irmãos. Foi o primeiro feito em Hollywood e não baseado em um dos seus shows da Broadway. Apesar disso, eles aproveitaram e desenvolveram algumas ideias que já haviam usado no vaudeville.

Harpo, Zeppo, Chico e Groucho em Os quatro batutas

O diabo a quatro (Duck Soup, 1933) não foi tão bem comercialmente quanto os anteriores, mas hoje é visto como uma obra-prima da comédia e traz uma das cenas mais famosas dos Marx, em que Harpo finge ser o reflexo de Groucho no espelho, imitando seus movimentos.

O filme marcou o fim de um ciclo. A piora da crise econômica e uma reorganização na Paramount gerou o medo de calote, levando os irmãos a uma disputa judicial e à ameaça de criarem sua própria companhia. Eles chegaram a planejar uma adaptação do musical Of Thee I Sing, de George e Ira Gershwin, que tinha libreto de Kaufman e Ryskind, mas o projeto não se concretizou. Com o lançamento do quinto filme, o quarteto cumpriu seu contrato, se despediu do estúdio… e deixou de ser um quarteto.

A clássica cena do espelho de O diabo a quatro

O diabo a quatro foi o último filme de Zeppo, que partiu para seguir a carreira de engenheiro e empresário teatral. Um ás da mecânica, ele se tornou multimilionário e, ao lado de Gummo, criou uma das maiores agências de talentos de Hollywood.

Graças à amizade com o produtor Irving Thalberg, seu companheiro de jogatina, Chico negociou um contrato com a MGM. Thalberg propôs uma série de mudanças, que foram bem-sucedidas. Os irmãos adotaram um estilo menos anárquico, direcionando mais suas traquinagens aos vilões da história, e os filmes passaram a ter enredos mais estruturados. Além disso, o trio passou a testar piadas em shows ao vivo, antes do início das filmagens.

O primeiro trabalho na nova casa foi Uma noite na ópera (A Night at the Opera, 1935), que traz duas sequências clássicas: a da cabine de navio lotada e a do contrato, que inclui o trocadilho entre sanity clause (“cláusula de sanidade”) e Santa Claus (“Papai Noel”). Depois veio Um dia nas corridas (A Day at the Races, 1937).

Os dois filmes estão entre os maiores sucessos de bilheteria e Groucho os considerou os melhores da carreira dos irmãos. No entanto, a morte precoce de Thalberg, em setembro de 1936, pouco após o início das filmagens de Um dia nas corridas, os deixou à deriva.

Em 1937, Salvador Dalí escreveu um roteiro para eles, intitulado Giraffes on Horseback Salad. A história girava em torno de um romance entre um aristocrata espanhol (Harpo) e uma bela mulher surrealista, cujo rosto nunca seria visto pelos espectadores (Gala, esposa de Dalí). No entanto, a ideia não foi levada adiante, provavelmente porque a Metro achou surreal demais.

Uma dupla surreal: Dalí e Harpo

No ano seguinte, a trupe foi para a RKO, onde lançou apenas um filme: Por conta do Bonifácio (Room Service, 1938). Baseado em uma peça da Broadway, é o único que não foi escrito especificamente para os irmãos e o segundo (depois de O diabo a quatro) em que Chico e Harpo não tocam seus respectivos instrumentos.

Então eles retornaram à MGM para mais três filmes: Os Irmãos Marx no circo (At the Circus, 1939), No tempo do onça (Go West, 1940) e Casa maluca (The Big Store, 1941).

Após Casa maluca, o trio anunciou sua aposentadoria das telas. Chico e Harpo passaram a se apresentar, juntos ou separados, em casas noturnas e cassinos. Em janeiro de 1942, o mais velho estreou sua própria big band, Chico Marx and His Orchestra, que ajudou a lançar a carreira do vocalista Mel Tormé, então com 17 anos. Enquanto isso, Groucho participou de vários programas de rádio e foi o primeiro a aparecer na TV, com o popular game show You Bet Your Life. Em 1947, ele atuou no filme Copacabana, com Carmen Miranda.

Endividado por causa do jogo, Chico persuadiu os irmãos a fazer mais dois filmes, ambos lançados pela United Artists: Uma noite em Casablanca (A Night in Casablanca, 1946) e Loucos de amor (Love Happy, 1949) – que tem uma pequena participação de uma jovem chamada Marilyn Monroe.

Em 1957, o trio atuou no filme A história da humanidade (The Story of Mankind), mas em cenas distintas. Em fevereiro do mesmo ano, Groucho, Chico, Harpo, Zeppo e Gummo fizeram sua única aparição conjunta na TV, no programa Tonight! America After Dark.

Por volta de 1960, o diretor Billy Wilder propôs aos irmãos um novo filme, que se chamaria A Day at the United Nations (“Um dia nas Nações Unidas”). Groucho aprovou a ideia e mandou Wilder fechar um acordo com Gummo, mas Harpo teve um ataque cardíaco e Chico morreu em outubro de 1961, inviabilizando o projeto.

A última foto dos cinco irmãos juntos, em 1961. Chico morreu em outubro daquele ano.

Harpo faleceu três anos depois de Chico, em setembro de 1964.

A carreira solo mais bem-sucedida foi a de Groucho, que fez cinema, rádio, TV e shows ao vivo, incluindo uma histórica apresentação no Carnegie Hall em 1972. Também publicou vários livros. Morreu em agosto de 1977, quatro meses depois de Gummo.

Zeppo foi o último a partir, em novembro de 1979. Mas enquanto houver um par de óculos postiços com sobrancelhas grossas, um narigão, um vasto bigode preto e um charuto, os Irmãos Marx estarão vivos no inconsciente coletivo do público.

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