Uma noite na ópera

A Night at the Opera

1935

Sinopse: O empresário Otis B. Driftwood promete introduzir a rica sra. Claypool à sociedade, convencendo-a a investir 200 mil dólares para que um famoso tenor italiano cante na Ópera de Nova York. Porém, um mal-entendido faz com que Driftwood assine contrato com outro cantor.

Um de seus trabalhos mais aclamados, Uma noite na ópera foi um divisor de águas na carreira cinematográfica dos Irmãos Marx.

Foi a estreia dos irmãos na MGM, após o fim do contrato com a Paramount. Por sugestão do produtor Irving Thalberg – que articulou a contratação junto a Chico Marx, seu parceiro no bridge –, a trupe adotou um humor menos anárquico, direcionando mais suas diabruras para os vilões da história, e não para qualquer um que cruzasse seu caminho. Groucho Marx concordou com a ideia e, mais tarde, considerou os dois filmes produzidos por Thalberg – este e Um dia nas corridas (A Day at the Races, 1937) – os melhores do grupo.

Contudo, menos anárquico não significa menos lunático. Diálogos nonsense e brincadeiras absurdas, repentinas e sem motivo aparente, marcam o filme, remetendo a um humor de desenho animado, como os do Pica-Pau e do Pernalonga (especialmente em suas fases iniciais), que surgiriam alguns anos depois.

Também por iniciativa de Thalberg, o filme tem um enredo mais estruturado que os anteriores, que praticamente se resumiam às tiradas cômicas dos irmãos. Entretanto, a elaboração do roteiro não foi simples. James Kevin McGuinness foi o primeiro encarregado, mas sua ideia foi rejeitada pelo produtor. Em seguida, Bert Kalmar e Harry Ruby trabalharam por vários meses, mas Groucho ficou insatisfeito e pediu a contratação de George S. Kaufman e Morrie Ryskind. O roteiro final é assinado pelos dois, com McGuiness creditado pela história original.

Groucho, Walter Woolf King e Harpo

Para criar algumas piadas, foi chamado o comediante Al Boasberg. Conta a história que Thalberg ficou pressionando Boasberg para terminar, deixando-o irritado. Como represália, ele teria feito uma pegadinha com o produtor e os irmãos: chamou-os ao seu escritório para ver o trabalho pronto, mas, ao chegarem lá, eles encontraram a sala vazia e o script aos pedaços, pregado no teto. Levou algumas horas até conseguirem colar e ler tudo.

Outra ruptura foi a saída de Zeppo, que deixara os irmãos para seguir a carreira de engenheiro e agente teatral. Ao saber disso, Thalberg teria perguntado se eles aceitariam uma redução de salário, ao que Groucho teria respondido: “Sem Zeppo nós valemos o dobro.” A despeito da ausência, Allan Jones cumpre uma função semelhante à de Zeppo, como o bom moço “normal” que serve como contraponto às loucuras de Groucho, Chico e Harpo.

Antes do início das filmagens, os Marx testaram uma série de piadas em uma turnê ao vivo que rodou os Estados Unidos. Somente as que arrancassem gargalhadas do público seriam utilizadas. Isso quase fez com que eles eliminassem a cena mais clássica do filme, em que uma cabine de navio minúscula fica lotada de gente quase até o teto. Inicialmente a sequência (criada por Boasberg) não fez sucesso nos palcos, então os irmãos ignoraram o roteiro e a improvisaram, enfim obtendo a reação desejada.


A segunda cena mais famosa é aquela em que Groucho e Chico negociam a contratação do “maior tenor do mundo” e vão rasgando o contrato até sobrar apenas uma tira, que contém a cláusula de sanidade – o que enseja o trocadilho entre sanity clause e Santa Claus (Papai Noel).

Porém, se a cena da cabine sobreviveu, outras foram cortadas, antes do lançamento original ou em relançamentos. Uma abertura em que Groucho, Chico e Harpo apareciam rugindo no lugar do famoso leão da Metro (Harpo, mudo, tocava sua buzina) chegou a ser filmada, mas foi vetada por Louis B. Mayer. Além disso, originalmente, o filme começava com um número musical cantado por vários personagens urbanos, ao estilo da sequência inicial de Ama-me esta noite (Love Me Tonight, 1932), com Maurice Chevalier. Por volta de 1938, esse número foi removido, pois o governo fascista reclamou que ele zombava dos italianos. Outras pequenas referências à Itália também foram limadas.

Fazendo jus ao título, Uma noite na ópera oferece um interessante contraste entre o humor insano e a arte, com árias extraídas das óperas Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, e Il trovatore, de Giuseppe Verdi, cantadas por Allan Jones e Kitty Carlisle. O filme termina com uma grande encenação de Il trovatore – que é devidamente sabotada pelos irmãos.

Jones e Carlisle ainda cantam “Alone”, de Arthur Freed e Nacio Herb Brown, dupla mais conhecida pela trilha sonora de Cantando na chuva (Singin’ in the Rain, 1952). A canção também quase foi cortada do filme, mas Jones convenceu Thalberg a mantê-la, e ela acabou sendo um grande sucesso naquele ano.

Chico, Allan Jones e Harpo

Outra composição de Freed e Brown que aparece no filme e seria usada em Cantando na chuva é “All I Do Is Dream of You”, tocada por Chico ao piano. Harpo também toca piano, além do instrumento que lhe rendeu o apelido. É bonito vê-lo tocar a harpa, parecendo sair momentaneamente do personagem e se entregar à música.

Jones e Carlisle, que tinham formação operística, emprestaram a própria voz ao filme. Já Walter Woolf King, embora também cantasse, foi dublado, pois ele era barítono, e seu personagem, tenor.

Complementando o elenco, temos a indispensável Margaret Dumont, que trabalhou sete vezes com a trupe (Uma noite na ópera foi a quarta) e, segundo Groucho, era “praticamente o quinto irmão Marx”. Embora tenha iniciado a carreira como cantora de ópera, Dumont não canta no filme. Sig Ruman faz a primeira de suas três parcerias com o grupo. E vale mencionar Robert Emmett O’Connor, um dos coadjuvantes mais prolíficos dos anos 1930 e 1940, em uma de suas performances mais conhecidas, como o policial que persegue os irmãos em um apartamento. O’Connor também é lembrado pelo papel do chefe da gangue de James Cagney em Inimigo público (The Public Enemy, 1931).

Sig Ruman, Margaret Dumont e Groucho

Uma exibição de teste em Long Beach, Califórnia, foi um desastre. Thalberg e Kaufman passaram dias na sala de edição, tentando ajustar o filme ao ritmo de uma apresentação ao vivo. O resultado saiu a contento.

Simultaneamente ao lançamento, a MGM patrocinou um concurso de sósias dos Irmãos Marx. Uma noite na ópera se tornou um dos maiores sucessos comerciais do estúdio em 1935 e de toda a carreira dos irmãos. Em 2000, entrou em 12º lugar na lista das 100 maiores comédias do American Film Institute, e em 2007, ficou em 85º entre os 100 maiores filmes. Seu legado é tamanho que até o grupo de rock Queen batizou seu álbum de 1975 em homenagem ao filme.

Ficha técnica:
Diretor: Sam Wood
Elenco: Groucho Marx, Chico Marx, Harpo Marx, Kitty Carlisle, Allan Jones, Margaret Dumont, Sig Ruman, Walter Woolf King, Robert Emmett O’Connor, Edward Keane e Billy Gilbert
Roteiro: George S. Kaufman e Morrie Ryskind (baseado em história de James Kevin McGuinness)
Fotografia: Merritt B. Gerstad
Produtor: Irving Thalberg
Estúdio: MGM
País: EUA
www.imdb.com/title/tt0026778

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