O gato preto

The Black Cat

1934

Sinopse: Em lua de mel na Hungria, um casal americano tem que dividir sua cabine no trem com um soturno psiquiatra. Após um acidente, os três se abrigam na casa de um misterioso arquiteto, com quem o psiquiatra tem algumas contas a acertar.

Era de se esperar que a primeira parceria entre Bela Lugosi e Boris Karloff, os dois baluartes do terror no cinema, fosse sinistra. No entanto, O gato preto vai além, chegando ao limiar do bizarro.

De acordo com a abertura, o filme é “sugerido pelo imortal clássico de Edgar Allan Poe”. Foi o segundo trabalho de Lugosi – que já havia estrelado Os assassinatos da Rua Morgue (Murders in the Rue Morgue, 1932) – e o primeiro da dupla – que no ano seguinte faria O corvo (The Raven) – inspirado na obra de Poe. Todavia, o enredo tem muito pouco a ver com o conto homônimo. Tanto que o roteiro é creditado a Peter Ruric (um dos pseudônimos do escritor de revistas pulp George Caryl Sims, também conhecido como Paul Cain), com base em uma história original dele e do diretor Edgar G. Ulmer. Outra inspiração foi o ocultista Aleister Crowley.

Ulmer nasceu em 1904 na região da Morávia (leste da atual República Tcheca, então pertencente ao Império Austro-Húngaro) e se radicou em Viena. Nos anos 1920, trabalhou com grandes diretores do expressionismo alemão. A influência do estilo em O gato preto se evidencia no forte contraste entre preto e branco da fotografia, no extensivo uso de sombras, nos sets futuristas e nos temas sombrios com meandros psíquicos. Não à toa, o filme é considerado um dos precursores do terror psicológico.

Sombra e fobia: o expressionismo de Ulmer

Lançado em maio de 1934, à beira da implementação do Código Hays, o filme traz elementos macabros que dificilmente teriam sido aprovados dois meses depois. Após 15 anos na prisão, o psiquiatra Vitus Werdegast (Lugosi) vai ao encontro do arquiteto Hjalmar Poelzig (Karloff), que durante a Primeira Guerra Mundial, quando comandava o Forte Marmorus, traiu seu regimento, provocando milhares de mortes. Não satisfeito, se casou com a mulher de Werdegast, Karen (Lucille Lund), dizendo-lhe que ele havia morrido. Já na residência de Hjalmar – construída sobre as ruínas do forte –, Vitus descobre que a esposa morreu há alguns anos, e o rival mantém o corpo, junto a vários outros cadáveres femininos, conservado na antiga sala de mapas. Poelzig diz ao hóspede que a filha dele (igualmente chamada Karen e interpretada por Lucille Lund) também faleceu, mas na verdade ela está vivendo na casa como a segunda mulher do arquiteto.

Quando o gato preto do anfitrião aparece, descobrimos que Werdegast tem fobia do animal. Segundo ele, os gatos pretos são a encarnação do mal, e quando um morre, esse mal penetra na vida mais próxima – no caso, Joan Alison (Julie Bishop, creditada no filme como Jacqueline Wells), a jovem americana. Após o psiquiatra matar o felino, ela entra em um estado de transe, influenciada também pela escopolamina aplicada por Vitus, que explica que o calmante pode conferir faculdades mediúnicas à pessoa.

Mais adiante, é revelado que Poelzig é o líder de uma seita satânica – “um sacerdote moderno de um culto muito antigo” – e, naquela noite, haverá uma cerimônia na casa, na qual ele pretende sacrificar a virginal Joan (de onde podemos inferir que esse também foi o destino de Karen e das outras mulheres na sala de mapas).

Karloff invocando o Diabo

A cereja do bolo vem no final, quando Vitus consegue capturar Hjalmar e decide exercer sua vingança esfolando-o vivo.

Além disso, a história é permeada por um clima de tensão sexual subjacente, que vem à tona na necrofilia de Poelzig e na flagrante atração que ele e Werdegast sentem por Joan. Ulmer transmite o desejo do arquiteto fazendo-o agarrar o braço de uma estátua de mulher nua ao ver a moça beijar o marido, Peter (David Manners). Posteriormente, Hjalmar e Vitus disputam o destino do casal em uma partida de xadrez.

Outro ponto digno de nota é a casa de Poelzig, enaltecida como uma obra-prima da arquitetura moderna em estilo art déco, muito em voga nos anos 1920 e 1930. O set, as referências a cidades húngaras e as menções à guerra ajudam a situar a trama geográfica e historicamente, ao contrário de outros filmes da série de terror da Universal, que em geral são ambientados num espaço-tempo indefinido.

Lugosi, Karloff, David Manners, Albert Conti e Henry Armetta

A Primeira Guerra surge como um subtema do filme. Em 1934, ela ainda era uma memória recente e traumática para o mundo (a Segunda Guerra ainda não havia ocorrido). E, claro, é graças a isso que a história acontece. Werdegast e Poelzig são frutos do conflito. Embora sejam antagonistas, eles podem ser vistos como dois lados da mesma moeda. Como Hjalmar diz a Vitus: “Você diz que a sua alma foi morta e que você esteve morto todos esses anos. E eu? Nós dois não morremos aqui em Marmorus 15 anos atrás? Somos menos vítimas da guerra que aqueles cujos corpos foram despedaçados? Não somos ambos mortos-vivos? E agora você vem até mim, bancando o anjo vingador – infantilmente sedento pelo meu sangue. Nós entendemos um ao outro muito bem. Conhecemos muito bem a vida.”

O filme só não é mais tétrico porque a versão original de Ulmer desagradou ao presidente da Universal, Carl Laemmle, obrigando o diretor a fazer cortes e refilmar algumas cenas. Alguns trechos mais explícitos foram eliminados, atenuando (ma non troppo) o nível de horror. As mudanças também diminuíram os elementos sobrenaturais da trama e o caráter ambíguo do personagem de Lugosi, que se tornou uma espécie de herói trágico, embora continue sombrio e não exatamente carismático. Porém, os cortes também deixaram a história um pouco confusa e alguns subenredos sem desenvolvimento, como o transe de Joan e a ailurofobia de Werdegast, bem como seu fascínio pela moça.

O gato preto foi um dos primeiros filmes a usar trilha sonora quase contínua, com seleções de Liszt, Tchaikovsky, Chopin e outros, sob direção musical de Heinz Roemheld.

No elenco, temos ainda o galã David Manners, que já havia contracenado com Lugosi em Drácula (Dracula, 1931) e O beijo da morte (The Death Kiss, 1932) e com Karloff em A múmia (The Mummy, 1932). E um então desconhecido John Carradine faz uma pequena aparição como o organista no ritual satânico.

Lugosi e Karloff haviam chegado ao estrelato em 1931, com Drácula e Frankenstein, respectivamente. Porém, enquanto a carreira do inglês ascendeu, a do húngaro declinou nos anos seguintes. Embora os dois tenham ficado marcados pelo gênero do terror, Boris demonstrou mais versatilidade e conquistou papéis mais variados. Bela, por sua vez, não conseguiu se desvencilhar da imagem vampiresca. Com dificuldade para dominar o idioma inglês e problemas financeiros, ele oscilou entre grandes e pequenas produções. Ao ser convidado por Ulmer – que lhe prometeu um personagem mais positivo – para atuar em O gato preto, Lugosi não gostou muito de ter que dividir os holofotes, mas se animou com o retorno à Universal e a possibilidade de ofuscar o colega.

O gato preto foi um jogo de xadrez entre Lugosi e Karloff – na frente e atrás das câmeras

Mas não foi bem isso que aconteceu. Embora os dois tenham papéis de igual importância e praticamente o mesmo tempo em tela, Boris é claramente o astro principal, recebendo um salário maior e aparecendo à frente nos créditos. Sua popularidade era tal que ele foi creditado apenas pelo sobrenome, ao passo que Bela foi citado pelo nome inteiro (“Karloff e Bela Lugosi”). Concentrado no trabalho, Lugosi se incomodou com o comportamento mais descontraído de Karloff e seu hábito britânico de fazer um intervalo para o chá. No entanto, os dois acabaram estabelecendo uma boa relação profissional.

No fim das contas, o resultado foi positivo: O gato preto foi o maior sucesso de bilheteria da Universal em 1934, e os dois astros fizeram mais sete filmes juntos.

Ficha técnica:
Diretor: Edgar G. Ulmer
Elenco: Boris Karloff, Bela Lugosi, David Manners, Jacqueline Wells, Egon Brecher, Harry Cording, Lucille Lund, Henry Armetta, Albert Conti, Luis Alberni e John Carradine
Roteiro: Peter Ruric e Edgar G. Ulmer (sugerido pelo conto de Edgar Allan Poe)
Fotografia: John J. Mescall
Direção de arte: Charles D. Hall
Música: Heinz Roemheld
Produtores: E.M. Asher e Carl Laemmle Jr.
Estúdio: Universal Pictures
País: EUA
www.imdb.com/title/tt0024894

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