Cais das sombras

Le Quai des brumes

1938

Sinopse: Um desertor do exército francês chega à cidade portuária de Le Havre, onde se envolve com uma jovem de 17 anos que tenta fugir do padrinho dominador. Porém, a breve felicidade dos dois é ameaçada por um gângster que procura o ex-namorado da moça.

Dirigido por Marcel Carné, com roteiro de Jacques Prévert baseado no livro homônimo de Pierre Mac Orlan, Cais das sombras é um dos expoentes máximos do realismo poético francês, estilo precursor do film noir americano – e foi, com efeito, uma das primeiras obras a receber da crítica o rótulo de noir.

Em 1938, os nazistas avançavam a passos largos e a Europa estava à beira da II Guerra Mundial. A Frente Popular francesa fracassara e a Guerra Civil Espanhola estava em curso. O clima era de apreensão e não havia muitos motivos para otimismo, o que se refletiu no cinema. Não à toa Prévert atualizou o romance de Mac Orlan, que se passava durante a I Guerra.

Cais das sombras é uma história sobre destino. Não sabemos o que acontecerá com os personagens, mas sabemos que eles estão condenados. O filme já começa com uma longa sequência de créditos que passam na tela como um cortejo fúnebre, ao som da trilha solene de Maurice Jaubert – ele próprio uma figura malfadada, que morreu em combate dois anos depois, aos 40 anos.


Em uma noite de intensa névoa, o soldado Jean pega carona em um caminhão rumo a Le Havre. Quando o caminhoneiro pergunta se ele está de folga, Jean fica em silêncio. No meio do caminho, ele obriga o motorista a desviar subitamente para não atropelar um cachorro. Daí em diante, é seguido pelo cãozinho, o qual ele acaba adotando. Como dois vira-latas, sem casa para voltar nem lugar para ir, eles fazem companhia um ao outro.

Chegando à cidade, um bêbado o leva a uma velha taberna em um ponto isolado à beira da praia. Lá ele encontra o amargurado pintor Michel Krauss (cujas roupas e identidade Jean herda após ele se suicidar), que vaticina: “Alguns pescam, caçam ou vão para a guerra. Outros cometem crimes passionais. Há quem cometa suicídio. Precisamos matar alguém.”

Lá Jean também conhece Nelly, uma jovem que “cresceu rápido demais”. Ela tenta escapar das garras do seu possessivo padrinho Zabel e é perseguida pelo gângster Lucien, que está à procura de Maurice, ex-namorado dela.

Jean Gabin e Michèle Morgan

A atração entre os dois é imediata e avassaladora. Nelly deseja o porto seguro representado por Jean. Calejado da vida, Jean também deseja a beleza e os sonhos de Nelly, mas quer ir embora em um navio que partirá em breve para a Venezuela. São duas almas sem rumo, dois fugitivos querendo enterrar o passado, mas sem perspectiva de futuro. Assim, eles tentam viver ao máximo o presente, no qual estão confinados pela neblina e pela noite que parece eterna.

A solidão e a melancolia dos dois personagens ganham forma no vibrante chiaroscuro da fotografia de Eugen Schüfftan (que também trabalhou em outros clássicos do realismo poético e do expressionismo alemão, além de ganhar um Oscar em Hollywood), que confere um tom sombrio, uma escuridão cortada somente pela fisionomia rústica de Jean Gabin e pelos resplandecentes olhos de Michèle Morgan. Gabin vaga pelas ruas com o olhar perdido e um andar lento. Carné mostra frequentemente os protagonistas enquadrados por janelas, como se, presos dentro de si mesmos, vislumbrassem a liberdade do mundo lá fora aguardando o momento de sair. As interpretações passam uma sinceridade que vai além do melodrama banal. A névoa constante complementa a atmosfera opressiva e enigmática.

Jean e Nelly através da janela

O passado é nebuloso, e não há espaço para maniqueísmos. Não se sabe o que levou Jean a desertar – ou se ele cometeu alguma falta que o obrigou a fugir. Nelly, apesar da pouca idade, já conheceu muitos homens e teve um amor bandido com Maurice. Zabel é uma figura tão ameaçadora quanto patética, que é capaz de matar por ciúme, mas posa como um homem respeitável que gosta de música religiosa e “ama como um Romeu tendo a aparência de um Barba Azul.” Mesmo os heróis são falhos, mesmo os vilões são humanos. São pessoas combatendo seus demônios internos e procurando um meio de sobreviver.

Em uma cena que seria impensável em um filme americano da época, Nelly e Jean estão em um quarto de hotel, ela deitada e coberta apenas pelos lençóis, deixando claro que fizeram amor durante a noite.

Então ela nota que o sol reapareceu. Prenúncio de dias melhores? Não para Jean e Nelly. Naquele mesmo dia, após embarcar no navio, ele toma a decisão fatal de voltar para se despedir dela, mas a encontra sendo atacada por Zabel, a quem ele espanca até a morte para defendê-la. Na saída, é baleado por Lucien.

O destino de Jean – e de Nelly? – se cumpre

Teria ele chegado à América do Sul? Teria escrito para ela chamando-a para ir viver com ele conforme prometera? Já não importa. O destino previsto por Michel Krauss se cumpriu: Jean está morto nos braços de Nelly.

Ficha técnica:
Diretor: Marcel Carné
Elenco: Jean Gabin, Michèle Morgan, Michel Simon, Pierre Brasseur, Édouard Delmont, Raymond Aimos, Robert Le Vigan, René Génin, Marcel Pérès, Jenny Burnay, Roger Legris e Martial Rèbe
Roteiro: Jacques Prévert (baseado no romance de Pierre Mac Orlan)
Fotografia: Eugen Schüfftan
Música: Maurice Jaubert
Produtor: Gregor Rabinovitch
Estúdios: Ciné-Alliance/Les Films Osso
País: França
www.imdb.com/title/tt0030643

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