O cinema mudo nos anos 1930

Em 1927, a Warner Bros. revolucionou Hollywood ao lançar O cantor de jazz (The Jazz Singer), iniciando a era do som no cinema. A partir daí a técnica foi evoluindo até que, dois anos depois, todos os grandes estúdios já produziam seus talkies, deixando os mudos para trás.

Mas o cinema mudo não acabou aí. Até meados dos anos 1930, muitos cineastas, nos EUA e em outros países, continuaram fazendo seus filmes silenciosos, fosse por limitações técnicas, fosse por opção artística.

Hoje vamos ver alguns dos principais filmes mudos dos anos 1930!


Luzes da cidade

(City Lights)

1931

Quando Charlie Chaplin iniciou a produção de Luzes da cidade, em 1928, Hollywood estava no meio da transição entre o cinema mudo e o falado. No entanto, ele acreditava que os filmes sonoros eram um modismo passageiro e que seu principal personagem, o mundialmente famoso Carlitos, perderia o encanto se aparecesse falando. Como um dos donos da United Artists e, portanto, produtor e distribuidor de seus próprios filmes, Chaplin tinha liberdade de criação, então se manteve fiel a seu estilo.

Tecnicamente, Luzes da cidade é um filme com som, pois tem música e efeitos sonoros, mas não tem diálogos sincronizados, e sim apresentados em intertítulos. Pela primeira vez, Chaplin também compôs a trilha sonora de um filme seu – ele preferia que ela fosse tocada ao vivo, mas quando o filme estreou, em 1931, a maioria dos cinemas já havia dispensado suas orquestras.

Curiosamente, uma das sequências capitais do filme, aquela em que a florista cega confunde o vagabundo com um homem rico ao ouvir a porta de um carro bater, não tem efeitos sonoros. Por outro lado, a cena final, uma das mais belas da história do cinema, seria inconcebível com diálogos – a simples expressão de Chaplin não pede mais nada.

Luzes da cidade levou quase dois anos para ficar pronto e foi lançado já com a era do som em pleno vigor, mas ainda assim foi um enorme sucesso de crítica e público.


Tempos modernos

(Modern Times)

1936

Em Tempos modernos, Chaplin decidiu ir além. Ele o planejou como seu primeiro talkie, chegando a escrever um script com diálogos, mas, após alguns testes, não gostou do resultado e voltou atrás. Além de música (novamente composta pelo diretor) e efeitos sonoros, o filme tem algumas falas isoladas, porém elas são sempre ouvidas através de algum aparelho eletrônico. A única é exceção é Carlitos, que, já no final, tem seu primeiro e único momento sonoro ao cantar uma versão de “Je cherche après Titine” em uma língua totalmente inventada.

Tempos modernos foi a despedida de Carlitos e o último filme mudo de Chaplin, que, a partir de O grande ditador (The Great Dictator, 1940), enfim aderiu ao som.


Tabu

Tabu: A Story of the South Seas

1931

Dirigido pelo mestre alemão F.W. Murnau, Tabu é uma história de amor passada na Polinésia Francesa, sobre um jovem casal que é forçado a deixar a ilha quando a moça, virgem e pura, é escolhida para ser consagrada aos deuses e deve permanecer intocada.

Filmado em locação, tem belas imagens de Bora Bora e ganhou o Oscar de Melhor Fotografia. O elenco e boa parte da equipe técnica eram formados por nativos da ilha.

Foi rodado como parcialmente sonoro, mas em seguida foi revertido para integralmente mudo, como Murnau preferia. Seu filme anterior, O pão nosso de cada dia (City Girl, 1930), filmado como mudo, tivera efeitos sonoros adicionados pela Fox Film à revelia do diretor, o que o motivou a deixar o estúdio.

Tabu foi o último filme de Murnau, que morreu em decorrência de um acidente de carro uma semana antes do lançamento.


Limite

1931

A comédia Acabaram-se os otários (1929) é considerada o primeiro filme sonoro brasileiro, porém o cineasta Mário Peixoto remou contra a maré.

Altamente experimental, com narrativa não linear e toques surrealistas, Limite gira em torno de três personagens desesperançados em um bote à deriva no meio do mar enquanto relembram o passado. O silêncio – mesmo os intertítulos são escassos – faz a trama ainda mais claustrofóbica e angustiante.

Exibido pela primeira vez em maio de 1931, o filme causou polêmica e quebra-quebra. Nunca entrou em cartaz comercialmente e durante décadas ficou limitado a circuitos alternativos, até ser resgatado no final dos anos 1970. Foi o único trabalho cinematográfico finalizado por Mário Peixoto. Hoje, tem status de cult internacional e é considerado um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos.


A idade do ouro

(L’Âge d’or)

1930

Dirigido por Luis Buñuel e escrito por ele e Salvador Dalí, A idade do ouro é um caso à parte, podendo ser classificado como um semimudo. Tem diálogos com som sincronizado, mas eles são bastante esparsos. A maior parte é muda, inclusive utilizando intertítulos.

Lançado no ano anterior, o filme tem estilo e trajetória semelhantes aos de Limite. Conta a história de dois amantes impedidos de ficar juntos pelas restrições morais e sexuais da sociedade burguesa e da Igreja. É marcado por sequências surrealistas e um forte erotismo.

Estreou em 29 de novembro de 1930 com grande sucesso. Porém, quatro dias depois, um grupo de extrema-direita promoveu uma baderna durante uma exibição, levando o filme a ser banido e tirado de circulação por mais de quarenta anos.


Esses são apenas alguns exemplos. Muitos filmes mudos ou parcialmente mudos foram feitos nos anos 1930, em especial nos países que ainda não tinham tecnologia para produzir filmes sonoros. Mesmo nos EUA, no início da década, vários cinemas ainda não estavam equipados para exibi-los, de modo que alguns filmes falados, como por exemplo o clássico Drácula (Dracula, 1931), também tiveram uma versão muda.

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