Tempos modernos

Modern Times

1936

Sinopse: Carlitos trabalha numa fábrica, mas, após sofrer um colapso nervoso, é internado, perde o emprego e é preso ao ser dado como líder de um protesto. Ao sair da cadeia, ele conhece uma jovem órfã, com quem tenta construir uma nova vida.

Logo após o lançamento de Luzes da cidade (City Lights, 1931), Charlie Chaplin embarcou em um tour de 16 meses por Europa e Japão. Durante o périplo, encontrou grandes intelectuais da época, como Albert Einstein, George Bernard Shaw, Winston Churchill e Mahatma Ghandi, e testemunhou a pobreza e o desemprego trazidos pela Grande Depressão e a automação do trabalho. Ao voltar para os Estados Unidos, trouxe na bagagem a ideia para seu próximo filme.

Chaplin e Ghandi em Londres em 1931

Tempos modernos é uma comédia, mas uma comédia melancólica, que nos provoca mais reflexão do que riso. Longe de fazer piada com coisa séria, Chaplin usa o humor para escancarar o absurdo da situação da classe trabalhadora sob o sistema de produção fordista.

O filme começa com uma mensagem, superposta à imagem de um relógio: “’Tempos modernos.’ Uma história de industriosidade, de empreendimento individual – a humanidade em uma cruzada em busca da felicidade.” Em seguida, a primeira cena sugestivamente mostra um rebanho de ovelhas, que se dissolve em uma multidão de homens deixando uma saída de metrô em direção a uma fábrica. Que felicidade eles estão buscando?

Dentro da fábrica, um empregado aciona uma máquina, enquanto, em sua confortável sala, o presidente está entretido com um jogo de quebra-cabeça. A tranquilidade do presidente e o design futurista de sua sala contrastam com o suor dos trabalhadores e o ambiente precário do chão de fábrica.

Então, o chefe aciona uma tela – um protótipo de televisão, que só começaria a ser comercializada no final dos anos 1930 e só se popularizaria após a II Guerra Mundial – pela qual pode monitorar o trabalho de seus comandados. Quando Carlitos vai fumar um cigarro, uma tela dentro do banheiro o denuncia ao presidente, que o manda imediatamente de volta ao trabalho. A cena antecipa as teletelas de 1984, que seria publicado treze anos depois.

Em uma das sequências mais emblemáticas do filme, Carlitos é escolhido como cobaia para testar uma nova máquina de alimentação, que dá a comida automaticamente ao empregado, sem que ele precise ocupar as mãos ou interromper o trabalho para ir almoçar. No entanto, o mecanismo sofre uma pane e sai de controle, jogando toda a comida na cara do nosso herói.

A tarefa repetitiva na linha de montagem já está causando tiques nervosos em Carlitos, que acaba tendo um colapso. Ele é mandado para o hospital, mas, ao receber alta, o que acontece? Está desempregado.

Saindo do hospital, o adorável vagabundo vê um caminhão passar e deixar cair uma bandeirola vermelha. Ele corre atrás do veículo agitando a bandeira para devolvê-la, mas é engolfado por uma turba de manifestantes. Quando a polícia chega, pensa que ele é um líder comunista e o leva para a cadeia. (Qualquer semelhança com o Brasil de 2021 é mera coincidência.)

Anos depois, o próprio Chaplin viveria uma situação análoga, ao ser alvo de uma forte campanha de difamação pública por parte do FBI e acusado de comunista, o que o motivou a deixar os EUA em 1952.

A sucessão de absurdos chega ao cúmulo quando, após ingerir cocaína acidentalmente (numa sequência um tanto ousada para a era do Código Hays) e impedir uma tentativa de fuga de outros prisioneiros, Carlitos é perdoado de seu “crime”, mas prefere continuar preso. A vida na cadeia é bem mais fácil que lá fora, onde ele tem que enfrentar o caos urbano e lutar para sobreviver.

Libertado, ele conhece uma jovem órfã – a belíssima Paulette Goddard, em uma interpretação cativante, ao mesmo tempo espevitada e triste. Sentados em frente a uma casa, eles veem o casal morador se despedir e decidem buscar uma vida igual àquela. Os dois se tornam parceiros e vão morar juntos – num barraco de madeira caindo de velho –, mas é difícil distinguir a relação entre eles. Embora se suponha que vivam maritalmente, a pureza dos dois personagens não deixa entrever nada de sexual.

Chaplin e Goddard: parceiros no filme e na vida real

Mais tarde, quando Carlitos consegue emprego como vigia noturno de uma loja de departamentos, uma quadrilha de assaltantes invade a loja, mas o vagabundo reconhece entre eles um ex-colega da fábrica, que foi levado pela fome ao mundo do crime.

Depois de Carlitos ser preso mais duas vezes, ele e a companheira – cujo nome, segundo revela sua ficha policial, é Ellen Peterson – vão trabalhar em um café, mas a polícia chega para levá-la por ter fugido do conselho tutelar, e a dupla é forçada a escapar rumo a um futuro incerto. O que acontecerá com eles? Encontrarão trabalho? Permanecerão juntos? Ellen reencontrará suas irmãs?

Quando Chaplin fez Luzes da cidade, seu quinto longa-metragem mudo, os filmes sonoros já estavam consolidados em Hollywood havia cerca de dois anos, mas ele sentia que seu personagem mundialmente famoso – bem como o tipo de comédia que o consagrara – perderia o apelo e a universalidade caso aparecesse falando.

Contudo, ao iniciar a produção de Tempos modernos, ele tentou fazer diferente. Chegou a escrever um script com diálogos e gravar algumas cenas de teste, mas, insatisfeito com os resultados, logo voltou atrás. Carlitos deveria continuar em seu eloquente silêncio. Ou quase.

O filme é predominantemente mudo, mas contém música, efeitos sonoros e até algumas falas esparsas. Entretanto, os diálogos são sempre ouvidos através de aparatos tecnológicos, dando à voz humana – e aos humanos que a proferem – um caráter frio e artificial. O som pertence aos antagonistas da trama; os heróis permanecem mudos.

Mas há uma exceção. Carlitos, para surpresa geral, tem seu momento sonoro, já no final da película, como que prenunciando seu iminente desaparecimento. Trabalhando como garçom-cantante no café, ele entoa uma canção, mas, engenhosamente, Chaplin mantém a aura de mistério colocando em sua boca um idioma ininteligível, que soa ora como francês, ora como italiano, mas não é nem uma coisa nem outra.

A “letra” cantada pelo vagabundo é invenção do diretor, mas a melodia é bem conhecida: trata-se de “Je cherche après Titine”, composta em 1917 pelo francês Léo Daniderff e gravada em diversas línguas.


Chaplin também compôs a trilha sonora do filme, com assistência do maestro Alfred Newman e arranjos de Edward Powell e David Raksin. A peça mais famosa é o tema romântico, que em 1954 ganhou letra de John Turner e Geoffrey Parsons e foi intitulado “Smile”, cuja primeira versão foi gravada no mesmo ano por Nat King Cole.

Em outra das sequências mais lembradas do filme, Carlitos patina com os olhos vendados à beira de um vão aberto no centro do andar da loja. A cena foi realizada com a técnica de matte painting – ou seja, o “buraco” na verdade é uma pintura.

E um dos finais mais célebres da história do cinema poderia não ter acontecido. Chaplin inicialmente planejou um encerramento em que, enquanto Carlitos está hospitalizado se recuperando de um colapso nervoso, a órfã se torna freira. Esse final chegou a ser filmado, mas felizmente o diretor abandonou a ideia em favor daquela que todos conhecemos. Hoje só restam algumas fotos do original.

Chaplin e Goddard no final descartado do filme

Tempos modernos marcou a última aparição de Carlitos, após mais de vinte anos como o personagem mais querido do cinema mundial. No entanto, o barbeiro judeu de O grande ditador (The Great Dictator, 1940) tem aparência e comportamento muito semelhantes aos do adorável vagabundo.

Também foi o último filme de Henry Bergman, um dos mais frequentes colaboradores de Chaplin. O elenco ainda conta com uma pequena participação da futura estrela Gloria DeHaven, então com 10 anos, como uma das irmãs de Paulette Goddard. O pai de Gloria, Carter DeHaven, trabalhou como assistente de direção no filme.

A temática e as cenas da linha de montagem lembram as do filme francês A nós a liberdade (À nous la liberté, 1931), de René Clair. Isso levou a produtora franco-alemã Tobis Film a processar Chaplin – que alegou nunca ter visto o filme. Clair, amigo e grande admirador de Chaplin, não teve nenhuma participação no imbróglio e ficou extremamente constrangido Em 1947, após a II Guerra, a empresa tentou um novo processo, acredita-se que por vingança pela mensagem antinazista de O grande ditador, mas as partes chegaram a um acordo extrajudicial e o caso foi encerrado.

Chaplin, Tiny Sandford e Heinie Conklin

As filmagens levaram cerca de dez meses, de outubro de 1934 a agosto de 1935, um tempo relativamente curto para os padrões chaplinianos. O filme estreou em Nova York em 5 de fevereiro de 1936 e em Londres seis dias depois, com uma glamourosa première no Grauman’s Chinese Theater de Hollywood no dia 12.

Tempos modernos se tornou um clássico imediato, que, 85 anos depois, não perdeu a relevância. Como prova a sequência da manifestação comunista, continua absolutamente universal e atual. Essa é a sua característica mais fascinante e mais assustadora.

Jackie Coogan, astro de O garoto (The Kid, 1921), visita Chaplin no set de Tempos modernos
Ficha técnica:
Diretor: Charlie Chaplin
Elenco: Charlie Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Tiny Sandford, Chester Conklin, Hank Mann, Stanley Blystone, Al Ernest Garcia, Richard Alexander, Cecil Reynolds, Mira McKinney, Murdock MacQuarrie, Wilfred Lucas, Edward LeSaint, Fred Malatesta, Sammy Stein, Juana Sutton, Ted Oliver e Gloria DeHaven
Roteiro: Charlie Chaplin
Fotografia: Ira H. Morgan e Roland Totheroh
Música: Charlie Chaplin
Produtor: Charlie Chaplin
Estúdio: United Artists
País: EUA
www.imdb.com/title/tt0027977

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