Bela Lugosi

“As circunstâncias fizeram de mim a personalidade teatral que sou, que muita gente acredita também ser parte da minha vida pessoal.”

Bela Lugosi

Foi na cidade de Lugos, no Império Austro-Húngaro (atual Lugoj, Romênia), próximo à fronteira da Transilvânia, que Béla Ferenc Dezső Blaskó veio ao mundo, no dia 20 de outubro de 1882. Eternizado por um único papel, sua trajetória é bem mais fascinante do que a superfície mostra, e sua vida, tão fatídica quanto a do seu principal personagem.

Decidido a se tornar ator, aos 12 anos Béla deixou a escola e, na virada do século, iniciou a carreira com pequenos papéis em peças e operetas. Em homenagem à cidade natal, adotou o sobrenome Lugosi. Entre 1913 e 1919 atuou no Teatro Nacional da Hungria, em Budapeste, onde chegou a interpretar Jesus Cristo. Estreou no cinema em 1917. Daí até 1919, apareceu em quatorze filmes húngaros, usando o nome artístico Arisztid Olt.

Embora atores estivessem isentos do serviço militar, Lugosi se alistou no exército para lutar na I Guerra Mundial, onde acabou ferido no front russo. Nas seguidas revoluções que agitaram a Hungria após a guerra, ele se envolveu na militância socialista e na criação de um sindicato de atores, o que fez com que fosse proscrito e forçado a deixar o país em 1919. O exílio também provocou o fim do seu casamento de três anos com Ilona Szmik.

Após uma breve passagem por Viena, Béla estabeleceu-se na Alemanha, onde atuou em diversos filmes ao longo de 1920. Em dezembro daquele ano, migrou para os Estados Unidos na tripulação de um navio mercante, desembarcando em Nova Orleans. Em março seguinte, chegou a Ellis Island. Em 1931, ele viria a se naturalizar americano.

Bela Lugosi

Em Nova York, formou uma pequena companhia de atores ao lado de outros expatriados húngaros, que se apresentava para plateias de imigrantes. Sua primeira peça em inglês foi The Red Poppy, de 1922, na qual teve que decorar suas falas foneticamente, por não dominar o idioma. Em 1923 fez seu primeiro filme americano, The Silent Command, e continuou trabalhando no teatro e no cinema.

Nesse período, de 1921 a 1924, foi casado pela segunda vez, com Ilona von Montagh.

A carreira de Lugosi tomou novo rumo em 1927, quando ele foi convidado para o papel principal na montagem de Drácula adaptada por Hamilton Deane e John L. Balderston. A peça foi encenada 261 vezes na Broadway e percorreu o país em turnê nos dois anos seguintes, chamando a atenção dos estúdios de cinema para o exótico protagonista.

Em 1929, Lugosi se casou com Beatrice Weeks, a abastada viúva do arquiteto Charles Peter Weeks. Quatro meses depois, ela entrou com um pedido de divórcio alegando infidelidade do marido. A “outra” seria a famosa atriz Clara Bow, e a história ganhou as manchetes de diversos jornais. Pouco se sabe a respeito do caso Bela-Bow, exceto que os dois se conheceram em 1928, quando ela foi ver Drácula em Los Angeles, pelo que consta, interessadíssima em conhecer aquele ator que se destacava nos palcos mesmo sem saber falar inglês. Após o fim do relacionamento, Lugosi encomendou ao pintor Geza Kende, seu amigo e compatriota, um nu de Clara, que ele manteve por toda a vida. Em 2013, o quadro foi leiloado por 30 mil dólares.

Lugosi e seu retrato de Clara Bow

Em 1930, a Universal Pictures decidiu levar Drácula para o cinema e optou por basear o roteiro na peça de Deane e Balderston. Apesar disso, Lugosi não foi considerado para estrelar o filme, mas fez um intenso lobby e conseguiu o papel. Lançada em fevereiro de 1931, a produção foi um tremendo sucesso de público e crítica, fazendo de Lugosi um astro e a imagem definitiva do Conde Drácula – e do Conde Drácula, a imagem definitiva de Lugosi.

Com efeito, segundo quem o conheceu, o próprio ator tinha muitos dos maneirismos do personagem, dotado de grande elegância, um ar aristocrático, gestos pomposos, um olhar penetrante e personalidade complexa – mas, ao contrário do vampiro, adorava vinho. Gostava de ser o centro das atenções e era dado a exagerar alguns relatos sobre sua vida.

Lugosi em Drácula

Com o sucesso de Drácula, a Universal resolveu aproveitar o filão das películas de terror e começou a planejar uma adaptação de Frankenstein. Lugosi almejava interpretar o cientista, mas o estúdio o queria na pele do monstro. Sob direção de Robert Florey, Bela chegou a fazer alguns testes de maquiagem, mas, insatisfeito com os resultados e com a concepção do personagem, deixou o projeto. O papel acabou ficando com um então desconhecido ator inglês chamado Boris Karloff.

Após abandonarem Frankenstein, Lugosi e Florey trabalharam juntos em Os assassinatos da Rua Morgue (Murders in the Rue Morgue, 1932), baseado no conto de Edgar Allan Poe. Com sobrancelhas frondosas e cabelos revoltos – bem diferente da figura engomada do vampiro –, Bela encarna o sinistro Dr. Mirakle, um cientista cujo experimento consiste em misturar o sangue de mulheres ao do seu gorila de estimação.

Lugosi como Dr. Mirakle e Charles Gemora como o gorila Erik em Os assassinatos da Rua Morgue

Em 1933, aos 51 anos, Lugosi se casou com Lillian Arch, uma americana de ascendência húngara, de 22. A união foi a mais duradoura da vida do ator e lhe deu seu único filho, Bela George Lugosi, também conhecido como Bela Lugosi Jr., nascido em 1938.

No ano seguinte, Lugosi e Boris Karloff estrelaram seu primeiro filme juntos: o macabro O gato preto (The Black Cat, 1934). A produção, que foi a maior bilheteria da Universal no ano, traz Lugosi num papel heroico, mas pouco carismático. Em seguida veio O corvo (The Raven, 1935), a terceira adaptação da obra de Poe, na qual o húngaro tem maior destaque, mas ainda assim aparece abaixo do inglês nos créditos.

Com Boris Karloff em O gato preto

Bela e Boris apareceram juntos num total de oito filmes. Há uma persistente lenda acerca de uma rivalidade entre a dupla. A verdade é que, apesar de uma resistência inicial da parte de Lugosi, os dois desenvolveram uma boa relação profissional, embora não fossem amigos pessoais. Entretanto, era clara a preferência do estúdio por Karloff, que invariavelmente aparecia em primeiro nos créditos e ficava com os melhores papéis.

Por volta de 1935, Lugosi começou a sentir intensas dores ciáticas, em decorrência dos ferimentos sofridos na guerra. O tratamento o levou à dependência em morfina e metadona.

Além desses percalços, o sotaque e a forte identificação com Drácula confinaram Bela aos filmes de terror. Para completar, em 1936 Carl Laemmle perdeu o controle da Universal, e a nova direção desistiu do gênero, relegando o ator à unidade de filmes B do estúdio. Lugosi também recorreu a estúdios menores e produtores independentes em busca de trabalho, sem no entanto conseguir fugir muito dos papéis sombrios ou exóticos. Em As 12 moedas de Confúcio (The Mysterious Mr. Wong, 1934), por exemplo, ele interpreta um ambicioso vilão… chinês.

Como Mr. Wong em As 12 moedas de Confúcio

No final de 1938, um relançamento em sessão dupla de Drácula e Frankenstein reavivou a popularidade de Bela, e a Universal o recontratou. Em seguida ele foi escalado para o papel de Ygor em O filho de Frankenstein (Son of Frankenstein, 1939), sua quinta aparição ao lado de Karloff, considerada uma de suas melhores atuações. No mesmo ano, fez uma pequena, mas importante participação em Ninotchka, com Greta Garbo, na MGM.

Karloff e Lugosi em O filho de Frankenstein

Nos anos 1940, suas ofertas de trabalho diminuíram consideravelmente. Ele reprisou o papel de Ygor em A alma de Frankenstein (The Ghost of Frankenstein, 1942) e finalmente viveu o monstro em Frankenstein encontra o Lobisomem (Frankenstein Meets the Wolf Man, 1943). Em 1948, voltou a interpretar Drácula em seu último filme “A”, Abbott e Costello encontram Frankenstein (Abbott and Costello Meet Frankenstein).

A partir do final da década, a carreira de Lugosi se resumiu a filmes de baixo orçamento, à TV, ao teatro – incluindo uma nova turnê de Drácula na Inglaterra, em 1951 – e a outras aparições ao vivo. Em 1952, atuou em duas comédias no cinema: a inglesa Mother Riley Meets the Vampire e O satânico Dr. Zabor (Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla).

Selo postal homenageando Lugosi, lançado nos EUA em 1997

No ano seguinte, Bela se divorciou de Lillian, aparentemente enciumado com o emprego dela como assistente do ator Brian Donlevy. De fato, ela acabou se casando com Donlevy em 1966.

Ainda em 1953, vivendo à margem da pobreza, Lugosi foi abordado por Ed Wood, que passou à história como “o pior diretor de todos os tempos”. Fã do ator, Wood lhe ofereceu trabalho em seus filmes, como Glen ou Glenda? (Glen or Glenda, 1953) e A noiva do monstro (Bride of the Monster, 1955).

Após A noiva do monstro, Bela decidiu se internar para tratar a dependência química. Ao saber do problema, o cantor Frank Sinatra decidiu ajudar com as despesas e foi visitá-lo no hospital, para surpresa do ator, já que os dois não se conheciam.

O vício em opiáceos gerou lendas a respeito de Lugosi, principalmente após a sua morte. Uma delas dá conta de que ele confundia realidade e ficção e agia como o próprio Drácula. Essas histórias, no entanto, estão longe da verdade.

Após sair do hospital, Bela se casou pela quinta e última vez, com Hope Lininger, uma fã 37 anos mais jovem, que escrevia cartas para ele durante a internação. Também fez algumas filmagens de teste para um novo projeto de Wood, que acabou se tornando Plano 9 do Espaço Sideral (Plan 9 from Outer Space, 1957), lançado após a morte do astro.

Bela Lugosi desceu ao reino dos mortos em 16 de agosto de 1956, aos 73 anos, vítima de um ataque cardíaco enquanto dormia em seu apartamento em Los Angeles. Por ideia do filho Bela Jr. e da ex-esposa Lillian – e não por desejo dele próprio, como diz mais um boato a seu respeito –, foi enterrado com uma de suas capas de vampiro – que não foi a usada em Drácula, como muitos acreditam. Esta foi posta em leilão em 2011, mas acabou não sendo vendida, e em 2019 foi adquirida pelo Academy Museum of Motion Pictures.

Busto de Lugosi no Castelo de Vajdahunyad, em Budapeste

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